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Venezuela: Chamada aos/às anarquistas de todo o mundo, em particular da América Latina

Capa do El Libertário nº 52

Da Venezuela, um apelo aos/ás anarquistas da América Latina e de todo o mundo: A solidariedade é muito mais do que uma palavra escrita

Dirigimos-nos a todas as expressões do movimento libertário, em particular às do continente em que nos encontramos, não só para chamar a atenção face à conjuntura que estamos a viver na Venezuela desde Abril de 2017, mas porque entendemos ser urgente que os meios anarquistas  se expressem mais enfaticamente sobre estas circunstâncias dramáticas, com posições e acções coerentes com o que tem sido o discurso e a prática do ideal ácrata, ao longo do seu percurso histórico.

É deplorável que muitas vozes anarquistas fora da Venezuela tenham mantido um mutismo que, de algum modo, tenha tido como resultado uma tácita aceitação daquilo que o governo chavista, hoje encabeçado por Maduro, em conjunto com as suas caixas de ressonância do exterior e também os opositores da direita e da social democracia, desejosos do poder do Estado, querem impor como “verdade” – quando estão em campanhas desaforadas para venderem à opinião mundial as suas visões enviesadas e carregadas de interesses pelo poder. Sabemos que as vozes afins não dispõem dos mesmos meios às ordens dos estatistas de várias emplumagens e que xs companheirxs enfrentam realidades complexas – em que há temas e problemas que, pela sua proximidade, requerem a sua preocupação mais imediata – mas julgamos que essa dificuldade não pode ser obstáculo para que se dê atenção, interesse e solidariedade quer ao que acontece na Venezuela, quer ao apelo que a esse respeito é divulgado pelos anarquistas desta região.

Num resumo sucinto do que hoje em dia se diz nos meios anarquistas da região, a actual conjuntura denuncia a natureza fascista do regime de Chávez – e a sua continuidade com Maduro – governos militaristas reaccionários que desde sempre temos denunciado a partir do “El Libertario”. Tem sido um regime ligado ao crime, ao narcotráfico, ao roubo, à corrupção, à prisão de opositores, às torturas, desaparecimentos, para além da desastrosa gestão económica, social, cultural e ética. Chávez conseguiu ter projecção com a sua liderança messiânica e carismática, financiado pela subida do preço do petróleo mas, desde a sua morte e com o fim da bonança, esvaziou-se o chamado processo bolivariano – uma vez que estava sustentado em bases muito débeis. Esta “revolução” seguiu a tradição histórica rentista – iniciada em começos do século XX com o ditador Juan Vicente Gómez e continuada pelo militar Marcos Pérez Jiménez – que não cessou com o esquema democrático representativo posterior.

Há quem no plano internacional (Noam Chomsky é o melhor exemplo) tenha rectificado o seu apoio inicial ao autoritarismo venezuelano e que hoje o denunciam de maneira efectiva. No entanto, observamos com grande preocupação o silêncio de muitxs anarquistas deste e de outros continentes sobre os acontecimentos na Venezuela. Há um adágio que diz: “quem cala consente”, o que se verifica na perfeição quando se faz passar fome e se reprime criminosamente uma população e os que deviam protestar pouco ou nada dizem. Apelamos a que quem segure as bandeiras libertárias se pronunciem, se ainda o não fizeram, sobre a nossa tragédia. Não há nenhuma justificação para a indiferença, se se tem uma visão ácrata do mundo. O contrário significa encobrir a farsa governamental, esquecendo o que foi dito pelxs anarquistas de todos os tempos acerca da degradação do socialismo autoritário no poder. Talvez que no passado a imagem “progressista” do chavismo possa ter enganado alguns/algumas libertárixs, mas se formos consequentes com o nosso ideal é impossível continuar hoje a sustentar essa crença.

Estamos em presença dum governo agonizante, deslegitimado e repressivo que procura perpetuar-se no poder – ainda que repudiado pela imensa maioria da população – que assassina através das suas forças repressivas e colectivos paramilitares e que, para mais, promove o saque. Um governo corrupto, que faz chantagem com caixas de alimentos, vendidas ao preço do dólar no mercado negro, que participa em toda a espécie de negociatas, um governo de boliburgueses e militares enriquecidos com a renda petrolífera e a actividade mineira destruidora do ambiente. Um governo que mata de fome e assassina, enquanto aplica um ajustamento económico brutal acordado com o capitalismo transnacional, ao qual paga pontualmente uma dívida externa criminosa.

É tempo de desmontar as manobras pseudo-informativas de que se pretendem valer no exterior, tanto quem controla como quem aspira a controlar o Estado venezuelano, e nisso esperamos contar com o apoio activo de indivíduos e agrupamentos libertários, tanto da América Latina como do resto do planeta. Qualquer demonstração de solidariedade anarquista será bem recebida pelo movimento ácrata venezuelano, que é pequeno e que se move entre muitas dificuldades, mas que na actual conjuntura agradecerá enormemente saber que, de algum modo, se pode contar com xs companheirxs do resto do mundo – seja reproduzindo e divulgando a informação que xs anarquistas da Venezuela difundem, gerando opiniões e reflexões que desmontam as visões que sobre este tema os autoritários de direita e esquerda tentam impor ou promovendo ou apoiando iniciativas de acção nos seus respectivos países em que sejam denunciadas as situações de fome e de repressão que se vivem hoje na Venezuela, o que seria melhor ainda. Agora, mais do que nunca, é necessária a vossa presença e voz em todos os cenários possíveis para que seja denunciada a tragédia em que está submerso o povo venezuelano.

Colectivo Editor do jornal “El Libertario”

Nota final do El Libertario: Análises e informações mais amplas e detalhadas sobre o que se está a passar na Venezuela, em base diária, no blog do El Libertario.

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