Itália: “Alguém gosta disto muito quente”

Roma, 15 Outubro 2011Roma, Itália, 15 de outubro de 2011: estoura uma ira incontrolável durante uma manifestação contra as medidas de austeridade impostas pelo governo para enfrentar à crise econômica.

Organizadores oficiais, inspirados no movimento espanhol dos “Indignados”, havia feito um chamado para uma “manifestação pacífica” para democraticamente expressarem seu desacordo. Mas tal convite não pode ser aceito: centenas de pessoas furiosas, a maioria delas crianças na adolescência, sem relação alguma com grupos ou organizações políticas, apenas tomaram as ruas de Roma para destruir a miséria existente, atacar bancos e lojas e, finalmente, envolver-se em uma batalha contra a polícia na praça de San Giovanni.

Pelo que sabemos, 12 meninos foram presos naquele dia, a maioria deles menores de idade. Dois dias depois, em 17 de outubro, a polícia invadiu as casas de dezenas de anarquistas por toda a Itália, em busca de “armas”, supostamente utilizadas durante a manifestação. A busca, conduzida sem um mandado, mas contando com os poderes especiais concedidos pelo artigo 41 TULPS (suposta posse de armas e explosivos), foi em vão.  Este comunicado do Asilo Occupato de Turim, coletado entre muitos outros, oferece uma boa visão do evento.

Comunicado:

Uma marcha foi realizada em Roma em 15 de outubro contra as novas medidas financeiras do governo e as medidas de austeridade adotadas para enfrentar o fantasma desgastado da crise. Na prática, as pessoas tomaram as ruas para reagir à ameaça de mais uma temporada de lágrimas e sangue, em detrimento dos mais pobres, sempre forçados a apertar o cinto e suportar o sacrifício diário e a exploração em um mundo cheio de mercadoria e regido pelos interesses de uns poucos que têm condições de consumir.

Para os organizadores, a sinistra caravana de cidadãos e “indignados” italianos estava destinada a ser uma marcha pacífica, uma caminhada animada, porém respeitosa, “para dar nossa opinião”, para expressar o inofensivo zumbido de opiniões timidamente e de dentro das linhas. Um pacote preparado com antecedência, um filme já visto e cujo fim era previsível, tudo dentro do equilíbrio de uma normalidade bem gerida. O jogo limpo entre o poder e os recuperadores da ira permite o funcionamento do deserto da democracia real asfixiando o assalto das paixões hostis.

Mas desta vez não houve drama, a marcha rompeu com as primeiras janelas quebradas, e o espetáculo virou fumaça entre as nuvens de gás lacrimogêneo e chuva de pedras.

Um ritmo caótico da destruição de caixas eletrônicos e lojas ressoam na Via Cavour, um mercado saqueado e carros destruídos, ou seja, a expressão de uma ira que aponta à esquerda e a direita.

Organizar-se para golpear os bancos e provocações de luxo é o primeiro passo para invadir as ruas e derrubar os lugares físicos da exploração, um por um. Saber como e quando fazê-lo é uma questão de tempo, espaço e uma grande quantidade de métodos a serem aprendidos na prática: por fogo em um carro, a fim de erguer uma barricada, é uma coisa diferente para fazer no meio de uma marcha que põe em risco o resto dos manifestantes e aqueles que vivem no edifício em frente, o que também afasta os eventuais cúmplices. Capuzes e capacetes pretos são ferramentas úteis para se proteger e manter o anonimato, mas não é um uniforme para mostrar. Vamos sair da lógica dos blocos militares para pressionar o regime e dos relatórios da polícia, somos proletários furiosos. Hoje em dia, o ódio dos chefes e da polícia não é exclusivo dos setores militantes, esgotados por anos de isolamento e a busca de pureza, mas uma realidade que está explodindo nas vidas de muitas pessoas.

A 14 de dezembro de 2010, em Roma, as batalhas de Val Susa contra o TAV (Trem de Alta Velocidade), as revoltas na Grécia e as expropriações massivas em Londres, nos dizem algo sobre a temperatura social do presente em que vivemos, de como a resistência deixou de ser moda. Não nos importa os gestos demonstrativos e alusões à revolta.

Como um inverno muito longo de pacificação que parece finalmente acabar, a rebelião não passa através de símbolos, embora estes sejam mais belos e sugestivos que os zumbis da política, mas passa através de ações e instrumentos práticos e eficientes. Identidades e fetiches ideológicos impõem-se exatamente devido à falta histórica de insurreição, enquanto hoje prever a possibilidade de uma insurreição significa assumir a responsabilidade de olhar para cima.

A batalha da praça San Giovanni foi uma oportunidade para medir-se contra o poder de polícia, e naquele dia tomou o fôlego de massas. Havia pessoas de todas as origens e idades para enfrentar as ordens policiais, muitas sem máscaras e em sua primeira experiência nas ruas… nada estava arranjado e determinado de antemão. O momento mais forte e mais explosivo da manifestação – que derrubou todos os planos, agitou o sangue e pôs a atmosfera calorosa – teve, como protagonista único, a determinação de apoderar-se de uma praça e defendê-la, com uma ira descontrolada e generalizada.

Há muito a aprender com esta demonstração de valor, exposta especialmente por crianças fartas sem bandeiras, como muitos de seus companheiros em muitas outras cidades do mundo. O que é Black Bloc? O instinto, a inteligência prática e a reciprocidade repentina de intenções: atacar um carro da polícia, re-lançar o gás lacrimogêneo e enfrentar a polícia.  O grito é Roma Livre.  Os vândalos podem fazê-lo por si mesmos.

A organização de pequenos grupos, afinidades e amizades, precisão de objetivos e agilidade são as características comuns que nos tornam quase invisíveis aos olhos do inimigo. O cenário de guerra civil que ecoa em muitas partes do mundo se paralisou com a apagada imagem do protesto espanhol… a parte dos cidadãos perdeu. A chamada de rebelião é muito mais forte. Não vamos voltar sempre… Vão à merda!

Asilo Occupato de Via Alessandria 12, Turim
19 de outubro de 2011

agência de notícias anarquistas-ana

Fonte: asilosquat.noblogs.org

Em Inglês

Perseguições em toda a Itália devido aos confrontos do 15 de Outubro em Roma 

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