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Portugal: Revista anarquista “Erva Rebelde”, nº 1

Acaba de sair o número 1 da revista de índole anarquista “Erva Rebelde”, tendo o número 0 saído há cerca de um ano. Pode ser consultada aqui  (disponível em pdf, também).

EDITORIAL

(…) não se pode matar a liberdade de pensar. É certo que pode ser silenciada, mas ela oferece seguramente a sua oposição perpétua e indomável aos ditames da autoridade tal como uma erva cresce sem ruído.” (Voltairine de Cleyre)

… para que o dinheiro entre, ele tem que sair.
(uma mulher na mercearia)

“… passo a vida a mijar e dói-me
a piça.
” (sentados no chão ao sol durante uma pausa, um operário para o outro)

Um dia, o mundo adormece com a morte de Fidel, no outro, acorda com a eleição de Trump e de uma ponta à outra das notícias e dos artigos de opinião, que percorrem o planeta, estamos sempre em conflito ideológico, ou resolutamente perplexas, com o mundo que nos rodeia. Este conflito cresce-nos nas entranhas e ramifica-se quer pela percepção que temos da importância dada a certos assuntos e o silenciamento de outros, quer pelas palavras assépticas que nos querem inculcar, mas também pela profusão intencionalmente caótica e dispersa. Se há coisas que nem apetece referir, porque soam a heresia política, como falar do mundo em que vivemos e que queremos construir sem referir o massacre da linguagem e do humano? Enquanto continuamos a nos organizar a um ritmo que será sempre demasiado lento, mas necessariamente lento, um desconforto, uma amargura e um desassossego se instalam. Entre companheiros que partem, como Júlio Carrapato, e outras que chegam, criam espaços como a livraria anti-autoritária em Lisboa, ou a livraria Amarcord em Berlim abrem portas e organizam momentos de partilha e discussão, nesta finisterra, os espaços do pensar anarquista permanecem à imagem do contexto social, político e económico que vivemos com as características próprias das nossas circunstancias geográficas, históricas e do nosso ser. O ritmo de eleições e os seus dispositivos, que confirmam as suas contradições e declarações perigosas e bélicas, como o recente ruído nuclear de dirigentes no twitter que, en passant, já fora assunto de discussão estival no seio da NATO encaminham-nos para um espaço cada vez mais pequeno, onde muros, ora legais ora de betão armado e arame farpado, são erigidos pelas chamadas democracias. Em nome da segurança e liberdade submetem-nos à pequenez e mesquinhez dos governos e à prepotência violenta do braço armado dos estados, as forças policiais e militares, que matam, violam e encarceram de Ferguson à Palestina, de Paris ao México.

A queda do muro de Berlim em 1989 deu lugar a uma economia militar lucrativa e a técnicas aperfeiçoadas de controlo e separação, porque afinal as vedações não foram derrubadas, apenas se deslocaram para as fronteiras do mundo ocidental, um espaço economicamente protegido e favorecido, um espaço definitivamente branco e judaico-cristão. Os países da Europa, um a um, consolidam dispositivos de repressão que nos apresentam como benéficos para a nossa liberdade e cimentam políticas económicas definidas a longo prazo nos corredores calcorreados pelas elites dos estados.
São políticas acima de qualquer partidarismo político, daí a profusão de candidatos sem partido aos mais elevados postos dos estados (como Macron em França) confirmando a natureza ilusória das democracias representativas, e que desfrutam de uma panóplia de máscaras democráticas imiscuídas nas engrenagens dos estados. Isto confirma-nos que sem perder de vista a nossa posição contra os estados e seus mecanismos, há uma luta premente que passa por todo o tipo de educação contra-capitalista e boicote ao capitalismo, quer pela destruição, quer pela organização de circuitos desviantes do consumismo (troca, respigagem, hortas comunitárias, apropriação, ocupação, roubo organizado para redistribuição). Entretanto, como se a confusão não fosse suficiente, a acção humanitária é separada do activismo político e criminalizada pelos tribunais em França. Respiramos um ar povoado de drones que vigiam e matam, alimentando um desejo de controlo totalitário capitalista, mas curiosamente, democratizado, porque cada qual pode comprar o seu drone pessoal, o seu pequeno circuito de vigilância.
A malta segue assistindo e participando na gamificação da vida, as nossas vidas.

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