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Montevideu: Porque é que La Solidaria constitue uma ameaça?

Não ao desalojo de La Solidaria

Não ao desalojo de La Solidaria

Os cachorros latem para o que não é conhecido deles…

Não nos surpreende nada tanto as mentiras como o espectáculo armado pela
imprensa nos últimos dias – afinal tratam-se dos mesmos servos do capital que há bem pouco nos quiseram vincular com a extrema – direita – sabem bem a conveniência da mentira para o andamento do seu negócio, não necessitando de a repetir mil vezes para que uns quantos incautos acabem por nela acreditar. Os emplumados do El País e todos aqueles que repetiram as suas palavras, não se importando se elas continham alguma ponta de verdade – como o El Espectador ou o M24 – estão bem conscientes de que o que importa no espectáculo é cacarejar. Não estamos a pedir o impossível, não pedimos sinceridade ou verdade à imprensa. Não é isso que denunciamos mas sim o objectivo que se esconde por trás das repetidas tentativas de manchar tanto a atividade de La Solidaria comp os vários companheiros lá envolvidos e, agora, todos aqueles que se aproximaram para concretizar a sua solidariedade. A imprensa, fazendo o recado ao Estado e aos especuladores que compraram a casa, prepara o terreno para a vingança sobre aqueles que se opõem ao negócio, a todos os negócios. É por isso que nos tentam enxovalhar e que falam sobre ratazanas e outras mentiras; eles não querem, não se atrevem a colocar sobre a mesa os debates concretos e objectivos que La Solidaria lança: a especulação imobiliária, a propriedade privada, a luta por um mundo melhor. Se amanhã tirarem os ocupantes da La Solidaria – se fecharem o centro social que funciona em Cordón há três anos, como biblioteca são muitos mais anos – a imprensa já terá terminado o seu trabalho sujo e estará já tudo preparado para a repressão.

Porque é que são tão perigosos?

La Solidaria não é o local de qualquer grupo ou organização política. É um lugar onde funciona a auto-organização social baseada, conscientemente, em princípios opostos ao valor do dinheiro e ao do seu mundo. Sabemos o que não queremos e sobretudo sabemos o que queremos e o que estamos a levar a cabo. O capital e o Estado criam relações baseadas na competição, dependência e consumo, opomos-lhes relações baseadas na reciprocidade e na solidariedade. Na Solidaria a competição converte-se em apoio mútuo, a vida toma sentido quando cada um/a trabalha por si e pelxs outrxs e o dinheiro converte-se num papel sem importância. Cada companheirx concorda com isto de forma livre e, em seguida, tanto é responsável ​​perante si próprix como perante xs outrxs pelo que realiza. Não há necessidade de sonhar com um mundo novo, vivemos-lo enquanto lutamos. Enquanto o Estado propõe às pessoas que fiquem adormecidas com todas as drogas possíveis, tal como com a televisão, o confinamento e o consumo de tudo o que não é necessário, nós propomos-nos começar a falar sobre as coisas que  queremos e realmente precisamos. E o mais importante – enquanto a recuperação do capital passa, cada vez mais, por cada um/a acreditar que decide coisas que não decide – mostramos que é possível ter a capacidade de decidir e encarregar-se disso. É isso que temos sempre feito.

Alguma coisa está errada e todxs sabemos disso

Enquanto os que vivem no medo, ou os que o geram, santificam a propriedade privada e o domínio, nós pertencemos a um mundo que, com actos, nega a necessidade da exploração e das hierarquias. Estamos orgulhosxs de não olhar para o outro lado, de nos implicarmos e de não tentarmos ter apenas um discurso bonito, antes o levando à prática. A luta a que pertencemos não começou nem terminará em nós, pelo contrário, faz parte de uma longa luta pela liberdade que tem sido travada em todos os tempos. Queremos banir de vez todas essas  hierarquias que colocaram o homem acima da mulher ou o humano acima da natureza. As empresas necessitam da concorrência, da guerra, da exploração e do consumo desenfreado, as pessoas não. Sabíamos desde o início que um lugar como o nosso – onde todas as actividades são gratuitas, as decisões são tomadas em conjunto e a lei é substituída pelo livre acordo – se torna um perigo para os defensores da ordem existente. Alguma coisa está errada e todos o sabemos, a natureza ameaçada, a vida desprezada e a exploração defendida como nunca pelos acomodados tem de parar.  A diferença entre nós e outras pessoas preocupadas é que nós pomos em prática soluções, é que lutamos contra o que está mal.

Quem deve decidir.

Agora falaram sobre a legitimidade dos proprietários, dos que lá puseram dinheiro, de ter a nossa casa, de nos tirarem de lá para continuar o negócio da especulação imobiliária, de continuarem a arrastar as pessoas para fora do bairro para que o negócio se mantenha. Mas de que legitimidade se fala? São os políticos que devem decidir sobre a nossa casa, os que ganham dinheiro com o que nos roubam, vivendo à nossa custa? Ou serão os empresários os que devem decidir, os mesmos que nos exploram no trabalho e sabem apenas o Evangelho da sua ganância? As nossas formas de auto-organização não são conhecidas deles, são nas nossas assembleias abertas e horizontais que tomamos as nossas decisões. É por tudo isto que milhares de cartazes na rua dizem “Tirem as mãos dos nossos centros sociais” nós não precisamos, nós nunca o fizemos. Nestes dias a palavra solidariedade adquire cada vez mais sentidos. Sabemos que a liberdade é isso, o que está a acontecer não acontecerá nunca à porta dos donos das coisas. A alguma lágrima de uma vizinha, a alguma carta de apoio por baixo da porta, junta-se a força e a coragem de muitos outros vizinhos que vieram para mostrar o seu apoio e dar mais força a uma coisa que já sabíamos: vale a pena lutar. Agora que o lugar está a ficar pequeno para as assembleias e que muitos solidárixs se aproximaram é que nos damos conta de que é possível estar à altura do que os tempos nos exigem. Até ontem, sabíamos que tínhamos muitxs companheirxs, hoje sabemos que temos muitíssimos cúmplices. É impossível evitar sentir regozijo pelas pessoas que se acercaram, e não tem a ver com o seu número, tem a ver com o que podemos aprender com isso: só a liberdade rompe o medo. A solidariedade internacional também nos encheu de alegria, a voz dos compas por todo o mundo só o tem reafirmado. Quando os carcereiros que tinham as crianças trancadas nas piores condições se foram embora e ocupamos a casa para lhe dar vida, uma vizinha imediatamente fez uma denúncia mas alguns anos mais tarde, quando a polícia tentou expulsar-nos, era ela que estava na linha de frente para defender o projecto. Com estes exemplos as palavras tornam-se inúteis. A nossa responsabilidade é a de continuar a lutar por um mundo diferente.

E então…

Querem-nos tirar, mas em substância só conseguiriam fazer-nos mudar de lugar. Os nossos projectos não estão confinados apenas a uma casa, uma casa é apenas um par de paredes, os nossos projectos vão além de todas as paredes. O que somos é imparável porque somos parte do conflito social, porque fazemos parte de projectos maiores para transformar a realidade, acabar com o mundo baseado no dinheiro e criar um mundo baseado na solidariedade e liberdade. As nossas convicções são firmes e as ideias claras. Fortalecemos a auto-organização social, longe de partidos políticos, religiões ou ideologias. Fortalece-nos o orgulho de não baixar a cabeça e de ter um modo de vida oposto ao valor do dinheiro. Assim, eles não podem fazer nada com a gente. Não pedimos permissão para ocupar um lugar vazio nem para questionar a sua sagrada propriedade. Não vamos rogar nada a nenhum poder, não nascemos para obedecer ou levar uma vida triste.

Há três anos ocupamos um lugar vazio e convertemos-lo numa oportunidade para a vida. Mas o que chamamos de vida não é o que pregam políticos ou outros empresários, a vida para nós está relacionada com a capacidade de escolher, desfrutar e responsabilizar-se por o fazer. Queremos tudo e não negociamos nada é por isso mesmo que a La Solidaria é uma ameaça a este mundo.

Assembleia contra o desalojo do centro social autónomo La Solidaria

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