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Catalunha: Da cultura e da relação de amor/ódio dos anarquistas com as vanguardas

“O embrutecimento materialista levou-nos a um mundo onde a cultura foi sequestrada pelo poder”

Charlie Chaplin no filme "Tempos modernos"

Entrevista com Ferrán Aisa, um dos nossos historiadores mais importantes, poeta e escritor de extensa obra centrada, basicamente, na cultura anarquista na Catalunha e no pensamento obreiro

Antonio Orihuela > Ferrán, o que foi o movimento operário?

Ferrán Aisa < Ao final do franquismo reapareceu na Espanha um movimento operário muito combativo que foi anulado pelo PCE com seu controle sobre as Comissões Obreiras. Em outro aspecto foi importante o reaparecimento da CNT com um crescimento proveniente da norma estabelecida pelos projetistas do novo sistema político. Nesta transição do franquismo ao sistema democrático burguês se combateu com todas as armas ao movimento trabalhista autônomo e libertário e, com a colaboração das burocracias sindicais, se desmobilizou o movimento obreiro. Desde então, todavia, não surgiu nada que tenha força suficiente para voltar a mobilizá-lo e como vimos na última greve geral de 29 de setembro, a “mobilização” fica sem fundamento no dia seguinte, uma vez que a direção toma outro rumo e contra os próprios trabalhadores firma pactos avessos em nome dos trabalhadores. E ninguém pede responsabilidades ou demissão, nem se rebelam…

Antonio > Ateneus, bibliotecas obreiras, educação laica, esporte não-competitivo, teatro, poesia… Tudo foi comido entre o Estado e a sociedade de consumo?

Ferrán < A realocação das empresas, novos polígonos urbanos, a televisão, o carro, a sociedade de consumo, etc., ajudaram a fragmentar o cidadão e deslocá-lo. A consciência obreira desses trabalhadores que montaram as sociedades culturais tem sido majoritariamente destruída. O embrutecimento materialista levou-nos a um mundo onde a cultura foi seqüestrada pelo poder. No entanto, em muitos âmbitos tenta-se fazer uma cultura que, como disse Machado, fosse marcada por uma consciência vigilante.

Antonio > A que você acha que se deve essa relação de amor/ódio dos anarquistas com as vanguardas?

Ferrán < O anarquismo organizado se voltou especialmente em reforçar o anarcossindicalismo e toda a cultura relacionada com a sua luta pela emancipação. Talvez essa luta contra o Capital e o Estado não terminou com a empatia com os artistas que se enfrentavam também a ordem estabelecida com seus poemas, escritos, performances e obras abstratas. Os artistas anarquistas o foram individualmente e a maioria deles nunca se filiaram à CNT. O futurismo, dadaísmo, o cubismo, surrealismo, etc., nasceram com espírito transgressor, mas a maioria deles acaba sendo integrada, finalmente, pelo sistema burguês. No campo libertário teve maior sucesso o realismo artístico e literário, pois se consideravam tendências mais adequadas para atingir a classe trabalhadora.

Antonio > Porque você acha que “A Idéia” carece hoje das antigas adesões da intelectualidade de outras épocas? Onde estão hoje os intelectuais e onde a cultura?

Ferrán < O pensamento único nos imposto pelo poder mundial não fez outra coisa a não ser minar os alicerces onde se assentavam as ideologias e, portanto, “A Idéia”. Assim, qualquer outra idéia que não seja a do poder acaba por ser subversiva, antissistema, portanto, deve ser combatida e denegrida. A única Idéia possível é a que emana do sistema, atualmente, o capitalismo neoliberal. A liberdade e a democracia foram seqüestradas por este ente sem corpo ou alma, mas onipresente em nossas vidas, chamado mercado. Mas diante desta “utopia” neoliberal que pretende vender-nos a sociedade do bem-estar, nada é impossível, pois o pensamento humano pode e deve continuar seu processo de libertação e levantar o pensamento utópico do sonho igualitário e, naturalmente, libertário.

Se em outros tempos se falava de intelectuais engajados em todos os campos ideológicos (incluindo o libertário), agora é múltipla a dificuldade para que se apresentem esses intelectuais contestadores, pois se por um lado os de signo universitário estão “corrompidos” por seu próprio discurso universitário, por outro os intelectuais ideológicos são reprimidos pelos mandarins do sistema e nunca ou quase nunca aparecem na mídia. Talvez agora devamos citar Chomsky, Garcia Calvo, Onfray, Lipovetsky… O compromisso cultural e o pensamento utópico são essenciais para quebrar o impasse em que os tempos e o sistema nos coloca.

Antonio > Se posto a plantar uma idéia, que idéia semearia; o que gostaria de ver brotar e se espalhar?

Ferrán < Creio nos valores básicos do anarquismo: a solidariedade, apoio mútuo, auto-gestão… Estes valores continuam tendo por si mesmo um grande significado, apenas com eles seria possível levantar a idéia de fraternidade e de liberdade do ser humano através das fronteiras, bandeiras, etnias e tendências.

Ferrán Aisa

Antonio > A que se deve essa relação entre anarquistas e espiritismo do final do século XIX e início do XX?

Ferrán < Na segunda metade do século XIX apareceram muitas sociedades de tipo livre-pensador, maçônica, teosófica, pitagóricas, espiritualistas, etc… Em quase todas elas, se não todas, algumas pessoas se declararam anarquistas e, geralmente, escrevem na imprensa libertária ou participam das atividades do movimento operário. São pessoas de profissões liberais: jornalistas, professores, pequenos burgueses, livreiros, médicos, arquitetos, engenheiros, escritores, etc. Por exemplo, em uma das sociedades espíritas obreiras de Barcelona participava Gaudi, um personagem genial que em sua juventude se relacionava com maçons, libertários e livres-pensadores. Em um desses encontros com Farga Pellicer, um dos diretores da FTRE e do Ateneu Catalão da Classe Trabalhadora, veio a idéia de construir um monumento a Bakunin. Pois este movimento livre pensador continuou suas atividades durante os primeiros anos do século XX, entre eles o espiritismo, moda estendida para o campo libertário até a guerra civil. O espiritismo foi tema de debate em publicações libertárias como La Revista Blanca; alguns o consideraram um ato contrário à ciência e à razão, e outros o defendiam mantendo que era um ato espiritual contra o materialismo.

O espiritismo foi condenado pela Igreja Católica, mas defendido pelos livres pensadores como uma ação a mais contra o poder da religião. Os espíritas organizaram congressos, publicaram revistas e editaram livros. Sua ideologia negava a existência de Deus, mas alguns buscavam raízes no cristianismo primitivo, criando até mesmo uma sociedade em Barcelona que tinha como lema: “Cristianismo, Anarquismo e Espiritismo”.

De nossa perspectiva atual é difícil de entender, mas devemos fazer um esforço para compreender os homens e mulheres que estavam pensando em construir um novo mundo a partir da própria realidade, sem esperar chegar o dia da vitória da revolução.

Antonio > Você não acha que é injusto o tratamento que recebe J. Salvat-Papasseit na literatura espanhola?

Ferrán < Eu não sei se do esquecimento de poetas como Salvat-Papasseit também sofrem outros autores clássicos da língua catalã, como Salvador Espriu, Joan Vinyoli, Agustí Bartra, Pere Quart, Martí Pol ou Carles Riba, para citar alguns nomes. Mas o caso de Salvat-Papasseit pode ser mais dramático, é conhecido seu trabalho pelos libertários espanhóis? Salvat é um poeta jovem, que morreu aos trinta anos, mas não só é um poeta, mas também autor de emotivas prosas revolucionárias de grande valor atual. Seu livro Fumaça de Fábrica, publicado em 1918 sob o pseudônimo de Gorkiano é essencial para conhecer a luta do movimento operário pela sua dignidade e consciência.

Salvat é um escritor proletário, filho de uma família humilde, educado no Asilo Naval, aprendiz de mil ofícios e, finalmente livreiro. Salvat é autodidata, formado culturalmente no Ateneu Enciclopédico Popular e nas lutas da rua. Apesar de sua morte prematura, nos deixou manifestos de vanguarda, seus caligramas, sua poesia romântica, sua poesia pura… Sua obra poética é composta de seis livros em que ele canta a vida, as pessoas de seu bairro, o artesanato, a beleza das meninas, o mar, o porto, sua terra… morreu jovem como Miguel Hernández, mas este teve a capacidade publicitária do partido comunista; Salvat, anarquista catalão e independente, não teve ajuda de ninguém, muito menos dos mandarins literários do “noucentisme” catalão. Ao longo dos anos, ressuscitou seu espírito de luta na voz dos trovadores da Nova Cançó: Serrat, Llach, Ribalta… foram publicadas novamente suas obras, foram feitos recitais poéticos, apareceram estudos… mas Salvat-Papasseit continua sem entrar no Canon, nem catalão ou espanhol. No entanto, Salvat é o poeta mais popular e querido pela geração de catalães da transição. Agora, o poeta do povo foi submetido a uma grande exposição em Barcelona e sua obra poética foi traduzida ao castelhano, portanto, é uma boa oportunidade para obter o livro e ler seus poemas.

Antonio > O que é e onde está hoje a poesia de combate na Espanha? Poderia dar nomes ou livros onde encontrá-las?

Ferrán < Creio que esta pergunta poderia respondê-la você mesmo, já que você é um dos poetas de combate na Espanha. Há alguns meses que publiquei o livro Poetas em tempo de revolta, onde falo sobre movimento cultural, literário e poético durante a Guerra Civil em Barcelona. É importante saber que a poesia foi arma cultural de primeira mão, tanto para expressar sentimentos quanto para defender a idéia ou causa. O ensaio se estende por todo o movimento poético que houve na Barcelona revolucionária: a homenagem a Garcia Lorca, os comícios poéticos, a conferência poética de León Felipe, os recitais de poesia de guerra, os combates poéticos na imprensa, os grupos de rapsódias e de poetas visitando trincheiras e hospitais, as poetas mulheres livres, e assim por diante. A poesia foi uma parte fundamental daquela guerra-revolução. Os teatros ficavam lotados, durante os dias finais da República para ouvir a Lorca recitar aos trabalhadores catalães ou já em plena guerra os recitais de Alberti no Gran Price ou León Felipe no teatro Coliseum, transbordando de apaixonados trabalhadores antifascistas. A poesia de combate atual existe, mas muito escondida nas margens da sociedade.

Antonio > Dalí libertário, o que acha?

Ferrán < Os artistas em geral têm um grande senso de rebeldia e, em muitos casos, uma grande dose de anarquismo em sua obra e em sua própria vida. Dalí é um personagem peculiar que viveu momentos de rebeldia e anarquismo, que o levaram a se tornar um grande artista. Em sua juventude, se aliou a grupos revolucionários e participou de atividades antimonárquicas. Por esta razão ele foi detido, julgado e preso. Em seguida, com seu Manifesto Amarelo, pôs de cabeça para baixo o “seny” catalão e foi “excomungado” da Catalunha e teve que vencer em Paris. Nos anos trinta fez conferências provocativas nos ateneus (Ateneu Barcelonés e Ateneu Enciclopédico Popular) e ingressou no partido comunista heterodoxo “Bloc Obrer i Camperol”, o antecedente do POUM. Dalí desenhou para sua imprensa e participou de comícios. Logo se tornou surrealista e mais tarde, depois da guerra, sabemos como terminou.

Antonio > Existe hoje uma arte anarquista?

Ferrán < A arte, se busca o compromisso, mantém sua ética e permanece livre, pode chegar a ser anarquista; no entanto se cai na demagogia ou no mercantilismo não será nada além de um objeto a serviço da cultura de massa. Atualmente existe o Koletivo Consciência Libertária, que acredita que os artistas são Revolucionários por natureza e que a arte é um bom meio de propagar a anarquia. Eles são herdeiros da filosofia artística do anarquista britânico Herbert Read.

Antonio > Você participou da reconstrução da CNT. Como vê a situação hoje na Catalunha?

Ferrán < No geral muito sonolenta, cada um envolvido em seu gueto lutando contra os gigantes sem armas ou quase bagagem. Ultimamente tem havido contatos entre os diversos coletivos anarcossindicalistas (as duas CNT e a CGT) e outros movimentos alternativos da cidade. Uma das provas desta nova sensibilidade foi a greve do mês de fevereiro passado.

Antonio > Você acredita que hoje se oferece à CNT uma segunda  oportunidade para voltar a adquirir o destaque que tinha nos anos trinta?

Ferrán < Repito o que disse no início da entrevista; ao longo da história tem havido muito poucos momentos de grande mobilização, a última foi em 1977, a CNT, que decolou bem, não pôde ou não conseguiu terminar de rematar a faena e custou-lhe para ficar a reboque dos acontecimentos por muitos anos. A situação mundial, a crise econômica e a falta de uma organização independente dos partidos e do Estado fazem da CNT uma boa opção para começar a reconstruir pontes caídas do movimento trabalhista para avançar para uma sociedade mais justa e mais livre e, acima de tudo, auto-gestionada.

Antonio > O que te ocorre para revitalizar uma nova sociabilidade?

Ferrán < Primeiro de tudo acabar com todo dogmatismo, pois considero que o dogma é o pior inimigo do anarquismo. Segundo, refazer o pensamento utópico para enfrentar o pensamento único. Terceiro, abrir um debate sobre a sociedade que queremos sem esperar que soem as trombetas do apocalipse ou as da glória. E, finalmente, convidar para participar do projeto todos aqueles que acreditam que outro mundo é possível.

Antonio > Nos brinda com um poema seu?

Ferrán < Bem, pois te regalo um poema inédito escrito no ano passado, que leva por título “El muro” como a canção de Pink Floyd:

No queráis ser
una piedra en el muro,
no queráis ser
esclavos del Capital,
no queráis ser
lacayos del Estado,
no queráis ser
nada más
que vosotros mismos,
libres y solidarios.
Empezad el camino,
abandonar la formación
de los conformistas,
poneros delante de la marcha,
marcad vosotros el paso,
ir siempre a la vanguardia,
seréis los nuevos héroes
dejaréis de ser esclavos.

fonte: Periódico CNT 377 – abril de 2011  www.cnt.es/periodico 

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