Bolívia: Dos Andes, por um Dezembro Negro

Uka Jacha Uru (o grande dia vai chegar) CCF em liberdade
Uka Jacha Uru (o grande dia vai chegar)
CCF em liberdade
Nenhuma/a presx anarquista está só
Nenhuma/a presx anarquista está só
Guerra Social
Guerra Social
Não ao centro nuclear
Não ao centro nuclear
Combate a civilização
Combate a civilização
TIPNIS LIVRES DO CAPITAL
TIPNIS LIVRE DO CAPITAL

Avessos aos “festejos” do fim de ano, saímos para deixar umas mensagens por um Dezembro Negro, no seu último dia. Debaixo de chuva e no meio da noite, desfrutando da água nos nossos rostos, colocámos outra mensagem por lutas há muito começadas.

Juntamos-nos à chamada internacional por um Dezembro Negro, uma chamada dxs companheirxs Nikos Romanos e Panagiotis Argirou, a partir das prisões gregas. Aqui, tal como noutras localizações geográficas, vivemos numa sociedade de controlo, dominação e exploração da terra e dxs animais humanxs ou não humanxs, a lei é a ameaça que não nos deve paralisar, pelo contrário, devemos enfrentá-la dia após dia. As distâncias assim como os contextos podem ser diversos, contudo o inimigo é o mesmo. Aqui, tal como em qualquer outro sítio, vivemos num ambiente repressivo – desta vez cabe ao regime democrático ser o verdugo daquelxs que se venham a revelar ser contrárixs ao sistema imposto e a uma sociedade de desigualdade, estratificada – por esse motivo escutámos a chamada do Dezembro Negro.

1. Algumas batalhas continuam

Não nos sentimos derrotados na luta pelo TIPNIS – embora xs seus dirigentes tenham sido conquistadxs pelas ofertas civilizatórias do poder e as lutas sociais que o dizem defender sejam mantidxs num estado de catalepsia. Nenhum projeto do Capital nos vai passar despercebido.

Na Bolívia, já há muito tempo que começou a destruição total da terra pelo estado, pelos interesses económicos, como foi o caso da invasão do TiPNIS, sob o pretexto do progresso e da suposta necessidade desse progresso por parte das comunidades indígenas – que não querem nenhuma estrada ou qualquer coisa do estado, apenas querem viver em paz – mas o terrorismo do estado exige e viola o seu espaço, violenta o seu lugar com propaganda civilizatória.

2. Outras lutas se iniciam

Outro exemplo é  o centro de investigação nuclear que está por construir na Bolívia – em El Alto, numa área pobre, onde escasseia principalmente o trabalho, aproveitando-se da necessidade dessas pessoas prometem-lhes empregos e uma vida melhor. O projeto obteve o sim para ser construído com o apoio de maior universidade na Bolívia UMSA (universidade sede de Saint Andrew) que por dinheiro entregou toda a sua decadente ética e, obviamente, com o apoio contínuo da imprensa, para não já falar do estado que, com as falácias fala da energia nuclear boa, que cura o cancro – isto tem graça, quando se sabe que também essa simpática radiação o produz, com as radiações que darão às pessoas que estiverem mais necessitadas. Esta construção não está para começar agora mas há que contra-atacar desde já.

Rejeitamos a construção do centro de investigação nuclear, um projeto mais do “processo de mudança” do Poder, um assunto que solidifica a polarização de exploradores e exploradxs, ricxs e pobres. Supostamente este “centro” servirá para melhorar a produção de alimentos e sementes, ou seja, para que muitos empresários enriqueçam à custa dxs exploradxs; o tratamento do câncer através da medicina nuclear, uma doença dolorosa que pode ser terminal, mas devemos tomar muito em conta que as doenças que se espalham cada vez mais, em termos demográficos, são o resultado do modo de vida civilizado, da expansão de alimentos geneticamente modificados, da alteração genética do que comemos – se isso continuar, cada vez mais pessoas ficarão doentes, mais expostxs estaremos a estas doenças – é o que o Capital quer, ter mais consumidorxs de fármacos para aumentar a sua produção, o Estado quer é ter-nos enfermxs para melhor expraiar o seu poder e controle, connosco presxs de doenças resultantes da civilização. Por isso, estendemos a nossa solidariedade a todxs xs enfermos de câncer que até se crucificaram e barricaram no Hospital de Clínicas, na cidade de La Paz, em 11 de Agosto – em Julho morreram 57 dxs seus/suas companheirxs, o Poder não está interessado nas suas vidas, consideram-nxs uma despesa e um fardo. É importante lutar contra o Poder, este é o inimigo, só lhe importa manter o seu domínio e controle sobre as nossas vidas. Xs habitantes do Distrito 8 da cidade de El Alto, apoiantes do projeto, não vêem que só vão receber migalhas, se este centro foi construído, a troca de contaminação radioativa e ganâncias milionárias para os capitalistas. O Estado / Capital tem como objetivo debilitar-nos para nos submeter, neste caso o ponto álgido é a pobreza e a doença.

Aqui a civilização avança veloz … a tecnologia reune-se e a ciência prepara-se para apoiar o seu projeto de expansão … seja a estrada do TIPNIS ou a planta nuclear projetada para 2025 … é a civilização que está a atacar com as leis do Estado “indígena” e o dinheiro do capitalismo estatal e privado. O ecocídio e o isolamento das populações contra a civilização – como acontece com algumas que rejeitam abertamente os projectos do progresso tecnológico – são o resultado de um projeto civilizatório. Não se trata aqui de nos batermos contra este ou outro governo, mas sim contra a civilização que ocidentaliza, escraviza e depreda paulatinamente sob diferentes discursos e bandeiras.

Essa condição de “pobreza”, imposta pelos discursos desenvolvimentistas, orienta as cabeças dóceis para pensar o oposto a essa pobreza é a comida rápida, a casa burguesa, o carro último modelo e a capacidade de consumo garantidos por trabalhos medíocres de projetos que atentam contra o selvagem. As pessoas aqui escolhem isso como um parâmetro de vida, nada a fazer…

3. Algumas lutas esperam um grande dia …

Os ataques repressivos do Estado têm dado rédea solta à injustiça burguesa – a qual tem beneficiado o poder infame e o resultado disso tem sido encerrar companheirxs anarquistas que hoje em dia continuam sequestradxs … mas é uma solidariedade eterna a que vai chegar, cruzando todas as fronteiras impostas.

O grande dia chegará, compas na prisão!!! Saudamos os seus combates, tentativas de fuga e posições firmes. Que as forças não esmoreçam!!!!!!! A partir daqui fora e perto das montanhas enviamos estes gestos … enquanto procuramos novos caminhos … manadas e guaridas.

A Monica e Francisco, e a todxs os compas represaliadxs pelas operações Pandora, Piñata e Ice, compas na Grécia, Uka Jacha Uru (em língua aymara – o grande dia vai chegar), no Chile aos compas do caso Security, Freddy, Marcelo e Juan. A Nataly, Juan e Enrique, a Sergio, a todos xs que nesse território mantêm uma posição combativa no seu sequestro. Aos/às compas no México … na Suíça a Marco, a Gabriel Pombo da Silva, e Cláudio Lavazza, aos/às compas em Itália, e em todas as prisões … Que os nossos gestos, pelo menos, os abraçem um pouco.

Dos Andes, por um Dezembro Negro.

Nota dxs tradutorxs: TIPNIS é o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure. A construção de uma estrada, unindo Cochabamba a Beni – atravessando o TIPNIS, uma reserva natural da Bolívia – é um projeto a que se ofereceu resistência na região, tendo sido suspenso até Junho de 2015.