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$hile: Carta de Luciano Pitronello a um ano da explosão do engenho que quase lhe custou a vida

O ABISMO NÃO NOS DETÉM
COMUNICADO UM ANO APÓS A EXPLOSÃO DO ENGENHO QUE QUASE ME CUSTOU A VIDA

Primeiros días de Junho, 2012

Às consciências rebeldes; aos e às meus/minhas companheiros/as espalhados/as pelo mundo:

Passou pouco mais de um ano desde que tudo mudou para mim nessa fria madrugada de 1 de Junho do ano passado, e creio que não me pronunciar a propósito é seguir o jogo do objectivo com que me têm aqui -prisioneiro no hospital da prisão de Santiago 1- para além de que seria uma desonra para mim próprio, mas sobretudo para vocês, meus e minhas queridos/as companheiros/as que se preocupam comigo.

Devo esclarecer; quis fazer um balanço a um ano de tudo isto ter ocorrido, mas não o manifestei publicamente por dois motivos: o primeiro é porque aquele texto era demasiado comprometedor, e o segundo, e o mais importante na minha  opinião, porque realmente nada analisava, era só uma compilação de rancor, ressentimento e ódio que vociferava contra todos/as, onde maldizia a pouca sorte do que veio a acontecer, mas agora desejo fazê-lo, sinto-me com a lucidez de poder entregar-lhes algumas palavras que estou seguro que tanto merecem.

Mas, antes de começar, quero adverti-vos dos motivos da minha demora. Os dias não têm sido fáceis, o fecho permanente começou a fazer o seu trabalho, o meu estado de humor tem sido terrível, motivo pelo qual o meu primeiro esboço deste comunicado acabou por ser uma colectânea de raiva e ira; a prepotência, agressividade e altivez começaram a florescer nas minhas atitudes e, perante algumas situações, simplesmente não me reconheço, mas luto, luto para seguir em frente e não me atraiçoar, tentando combater-me no quotidiano viver, recordando-me e não esquecendo quem sou e porque estou aqui.

Bem, aqui vou eu…

No que diz respeito aos meus ferimentos e â reabilitação, isso tem corrido muito bem; exercícios diários e uma prática de vida de trabalho bi-manual têm feito – com um grande sorriso direi isto – com que tenha superado a invalidez de saber-me semi-mutilado; no respeitante à minha vista, esta tem melhorado muitíssimo, mas devo continuar com o tratamento ocular por um bom tempo ainda; em relação às queimaduras, para além de estarem todas cicatrizadas muitas evoluíram positivamente, mas, mesmo assim, devo continuar a utilizar o fato compressivo especial para as queimaduras e o óleo de rosa  mosqueta. Pelo menos para mim, este capítulo que tem a ver com o meu estado físico fica encerrado, o engenho felizmente não me matou.

O meu estado emocional tem estado vacilante nos últimos dias, mas isso deve-se ao encerramento permanente- sei que todos nós, os prisioneiros, temos os nossos altos e baixos- motivo pelo qual me encontro optimista ante esta situação, ainda por cima o encerramento não pode ser para sempre,e mesmo que o fosse, teriam só a minha carne, porque a minha mente e espírito continuarão nas ruas, ao lado de cada combatente, sorrindo e conspirando, e isto que digo, não o digo a modos de referência poética, afirmo-o como uma realidade que se reflecte na projecção do sonho insurrecto, onde de distintas formas se esmagam os valores autoritários da dominação.

Estar na prisão é duro, não o negarei, mas sim, é possível enfrentá-la, e disso somos testemunhas, eu mesmo assim como todos/as e cada um/a dos meus/minhas companheiros/as, os/as quais de distintas formas me têm abraçado para me fazerem saber que não estou sozinho. O castigo a título de exemplo de que tanto se gaba o poder, não tem nada disto, pelo menos no meu caso, já que tanto os/as meus/minhas companheiros/as como eu não somos o modelo para que o seu show-mediático se realize com êxito e ,certamente, o único exemplo aqui continuamos a dá-los nós, empunhando a nossa melhor arma: a solidariedade.

Auto-críticas faço muitas, sobretudo neste episódio que se chama prisão, onde apareceu o pior de mim, pelo que humildemente peço desculpas públicas a todos/as e a cada um/a dos/as companheiros/as a que de uma ou de outra maneira mostrei os dentes, aqueles e aquelas que ataquei só pelo  desejo de descarregar a minha ira, aos/às que não desejo ver/escrever pela raiva e pela inveja que me gera a sua condição, e sobretudo, peço desculpas a todos/as aqueles/aquelas que tiveram de engolir más caras, momentos desagradáveis e o meu péssimo carácter só pelo facto de se quererem solidarizar comigo. É assim que, devo confessá-lo, não soube estar à altura das circunstâncias, da sua solidariedade, que é enorme, mas aquí estamos, dispostos a seguir em frente, a cairmos e a voltar a levantar-mo-nos, para aprender com os erros. É essa a ideia não é?

Se se deve fazer uma crítica construtiva seria talvez só no que se refere à falta de informação em primeira mão sobre o que é viver as consequências de eleger uma vida rebelde, o que significa viver na prisão e o isolamento, e o que este implica, entender de mais perto o estigma de ser considerado um/a terrorista e o que se passa com as nossas vidas quando isso acontece, tomarmos mais contacto com temáticas como a clandestinidade e o exílio, recorrentes paragens dentro da luta pela liberdade, de uma maneira mais real e menos imaginária, e por último, começar a falar mais sobre os métodos de tortura aplicados pelo inimigo, a denúncia como  valor base para um estado policial,a mutilação como uma possibilidade na guerra contra a autoridade, a dor e a agonia como possibilidade como parte da vida de um/a guerreiro/a, e como todas e cada uma dessas difíceis possibilidades se podem enfrentar,para além da especulação e da charlatanice.

Se se trata de compartilhar a minha escassa, mas não menos intensa, experiência a este respeito, diría que o trabalho da prisão e do isolamento tem que ver acima de tudo com uma desmotivação moral, começa a importar-te muito mais um pepino a tudo o resto ou em relação ao que aconteça lá fora; agarras-te à realidade da prisão, esse é o teu mundo agora, que importa saber o que acontece lá fora se continuas dentro? Começas a preocupar-te cada vez menos contigo mesmo, tudo te é indiferente, tornas-te depreciativo para com os outros e para com o ambiente,para com os esforços dos restantes para te arrancar um sorriso, começas a valorizá-los cada vez menos,porque não estão a viver o teu pesadelo, a seguir perdes o medo a qualquer coisa que seja, porque sabes que já o perdeste todo e estás no fundo do abismo, cagas-te na vida, tornas-te hostil e agressivo, procurando com isso que tudo acabe depressa, que os carcereiros te amassem à paulada pelos insultos que lhes ofereces diariamente e que, se tiveres sorte, passem da conta e acabes morto, para por fim descansares da psicose que carregavas, ou, no pior dos casos, que outros presos façam isso para mostrarem quem é o/a mais bandido(a. Quando a psicose da clausura avança pouco nos começam a importar os gestos solidários, colocas-te armadilhas emocionais como: ” para que dar importância a um gesto solidário se continuo preso?” Ou pior ainda articula frases como: eles/elas não estão a sofrer as consequências como eu, e maldizes a tua sorte; mas fazem-nos falta umas boas bofetadas de amor e carinho, para nos prevenir do nocivo nestes pensamentos, como quem diz, realmente é estúpido acreditar que só nós vivemos as consequências da clausura, e não é que se deseje que todos/as vivam estas consequências, mas o objectivo de não nos sentirmos sós e desamparados é o de nos tornarmos fortes; por isso, quando um/uma companheiro/a acaba preso/a, não se trata só da sua clausura/castigo,existem muitos corações nobres que decidem acompanhá-lo/a nesse novo cenário, solidarizando-se com ele/ela, dando-lhe assistência, escrevendo-lhe, difundindo a sua situação,reivindicando por ele/a nas ruas, com panfletos, informativos diversos, cartazes, gritando o seu nome na manifestação, rebentando os símbolos do poder em sua honra, etc.O cárcere e o isolamento fazem este tipo de trabalho, começas a cavar a tua própria fossa e só te vais submergindo nela, até que terminas escutando-te a dizer frases tão absurdas como que estás só e o pior desta trampa auto-imposta é que nós mesmos/as nos encarregamos de afastar as ferramentas que podem ajudar-nos a não ir abaixo para, em seguida, de modo doentio, andarmos a nos queixar e a deprimir com o esquecimento em que nos sepultarem, porque agora já ninguém se recorda, já ninguém se solidariza connosco, a desesperança consome-nos por dentro, e o que pensamos – que seria a nossa melhor arma para afastar a adversidade – foi afastado pelos muros do silêncio, a nossa vontade feita estilhaços, motivo pelo qual os teus projectos revestem-se de pouca relevância,  desanimas com facilidade, o futuro torna-se incerto, começas a perder interesse pela vida e numa noite de angústia acabas por enforcar-te na tua cela.

Por isso, para não caires neste tipo de dinâmicas, é importante observares-te constantemente e ires-te avaliando, agarrando-te às coisas/pessoas/circunstâncias que nos fazem bem e afastando-te do prejudicial (dentro do possível), pois certamente chegar a um estado de psicose carcerária não é um caso de um dia para o outro, é um monstro que se vai gerando no interior das nossas mentes e nos nossos corações, com o passar do tempo e, efectivamente, é um processo paulatino, onde podemos percebê-lo e combatê-lo, antes que seja demasiado tarde.

Devo dizer que nunca ninguém me tinha dito o que significava a clausura permanente (e muito menos como a enfrentar), a minha aproximação mais real eram as anedotas de um ou de outro livro, e o resto passava pela minha imaginação, com isto tampouco estou a dizer que hoje em dia não esteja disposto a assumir os custos das posturas de vida que escolhi, mas efetivamente, isso ter-me-ia sido de grande ajuda. Bom, mas pelo menos no meu caso, isso fez com que a tentasse enfrentar rodeando-me de projectos nos quais me pudesse envolver, tendo em conta a minha actual condição, é importante encontrar um sentido para os teus dias, podem ser coisas singelas, ler um livro e dar a tua opinião, escrever-se com outras pessoas privadas de liberdade ou não, criar música/poesia, aprender a desenhar, exercitar o teu corpo, etc, mas aqui vou fazer uma delimitação, os nossos projetos mais importantes, pelo menos na clausura permanente, devem ser só os que necessitem da nossa disposição e vontade, e com isso não recuso a possibilidade de colaborar em projetos que estejam para além das nossas limitações físicas, mas sim ter em consideração que estes últimos podem envolver marés de frustrações: que não veio a visita, que não me respondeu à carta,que se esqueceu de trazer isto ou aquilo,que não nos organizámos à volta de certas temáticas,  e se os nossos sentidos de vida se limitam à volta de projetos da rua,com alguns quantos tropeções deste tipo, ver-nos-emos moralmente derrubados, de maneira mais ou menos rápida; por isso creio que temos que manter dois tipos de projectos,um que nos faça manter o contato com o outro lado do muro, e o outro que tenha a ver acima de tudo com um trabalho individual, que se possa gerar inclusive em condições de clausura máxima, se ocorresse algum imprevisto, chame-se perda de comunicação com o exterior, ou confisco do material que usávamos nos nossos projetos individuais, não nos fizesse decair moralmente. É importante auto criar-se redes de apoio, para não desmoronar no caminho, ser observador/a e analisar o que te oferece a realidade carcerária e tomarmos dela o que estimemos conveniente, quer dizer, se a prisão te mantém em total isolamento, pode aproveitar o silêncio desta instância para ler, escrever ou reflectir e, por outro lado, se esta te oferece pátio, pode aproveitar para fazer exercícios ou conversar com outros/as presos/as sempre se pode aprender algo útil),e assim substancialmente, a possibilidade de elaborar um plano de fuga ou um motim sempre está lá, independente do regime a que nos submetam. Se me é dado falar de outra das possíveis consequências desta guerra, da que tanto enchem a boca alguns e algumas, poderia dizer que ser reconhecido como um/a inimigo/a da autoridade não é fácil, ainda menos quando mediaticamente és indicado como um/a terrorista,o teu entorno social é afectado quase de forma unânime, familiares, amigos, e companheiros /as afastam-se, viram-te as costas, e muitas vezes negam que te conheceram, são pouco os(as valentes que se atrevem a ficar perto de ti,a opinião pública faz o seu trabalho e por todos os métodos possíveis o sistema tenta-te isolar, já não necessitam sujar as  mãos com a pena de morte, hoje em dia são mais sofisticados e democráticos os métodos, fazem com que a tua vida deixe de ter sentido porque te afastam de tudo o que fazia parte, e isto não só o fazem fisicamente ao meter-te dentro de uma jaula, também psicologicamente ao fazer pouco das tuas convicções, satanizam-te coletivamente, apagam as recordações do que alguma vez foste e transformam-te num caso televisivo,num falhado ataque explosivo,num assalto bancário com um polícia abatido,ou num membro duma fantasmagórica organização terrorista,és isso, essa é a tua carta de apresentação e tanto é assim, que se não encontras consciente de que és muito mais do que o que os media dizem, acabas a acreditar nisso; e o melhor exemplo pode dar o Mauri, por que é conhecido? Por um 22 de maio falhado? e alguém alguma vez soube as vezes que ajudava as velhas de seu bairro com os sacos pesados das mercadorias? Nós mesmos nos encarregamos de reduzi-lo a uma data no calendário. A sociedade golpeia-te psicologicamente, os teus dias já não têm o sentido de antes, não vales nada e estragaste a vida de todos/as à tua volta, para quê continuar existindo? Para causar mais dor? Já não necessitam manchar as mãos com o teu sangue, por favor, somos pessoas civilizadas, em troca incitam-te a que acabes tu mesmo contigo, por que te reduziram a um mero episódio, és isso, um terrorista que o que apenas sabe fazer é produzir dor à sua volta, assim o melhor que tens a fazer é fazer um favor aos teus seres queridos, se é que ainda te resta algo de coração e terminar com a tua vida. Este é o discurso encoberto que reproduz a nossa resplandescente democracia chilena, já não existem revolucionários/as, agora nos minimizam a simples terroristas, porque claro, um/uma revolucionário/a, é alguém com sentimentos, com ideias, amante da liberdade e companheiro/a do/a oprimido/a, ou seja  alguém digno/a de imitar, em contrapartida, o/a terrorista é uma sombra impune que não tem coração e está obcecado com o uso da violência por traumas infantis do passado, e como enfrentar esta situação? Pela minha parte aprendi a manter-me â margem da opnião pública, que é muitas vezes a opnião da media burguesa, só com o simples facto de analisar a sua incumbência vem a pique grande parte de seu discurso, ainda que não negue que muitas vezes no seu trabalho souberam-me ferir profundamente, sobretudo quando percebes que estas opiniões saem da boca das pessoas que amas,quando são eles)as que te põem entre a espada e a parede,ou te matas ou continuas a atingir-nos,uau, que difícil, que forte, então és tu que tens de te decidir ou ti ou eles/as, ou tu ou os/as que mais amas, e se escolhes por ti? que sentido terá a vida sem eles/as? escolherá por ti? já não os/as amas? Tu?? Eles/as? O instinto de sobrevivência ou o teu amor? qual é o mais forte? Ao que parece nenhuma é a alternativa correta, mas escolho pela minha vida, se não me amo a mim é impossível que possa amar os/as outros/as, e acabo a expulsar da minha vida e do meu coração  várias pessoas para sempre, continuo avançando, só e ferido, como naquela madrugada, confundido, com a morte rondando-me e vermelho em chamas de ira, a vida atingiu-me novamente, mas é só um dos capítulos e volto a levantar-me, desta vez com a ajuda da que nunca faltou, a solidariedade. Reflicto agora, a um ano da explosão do engenho que quase me custou a vida, e não me arrependo dessas decisões, foi o melhor, a dor, e também a bomba, foram momentâneas, mas a vida seguiu e o sofrimento destes episódios esfumaram-se com o passar do tempo, a vida e a luta continuam, o que hoje se vê como inultrapassável amanhã já não será mais do que uma anedota mais um capítulo nesta existência de combate.

Até agora falei de duas possíveis consequências na luta revolucionária, a prisão e o ser reconhecidx como um inimigx da sociedade, mas ainda não falei da consequência que mais se nota em meu caso, a mutilação dos nossos corpos e de como podemos continuar a lutar apesar disto. Se me cabe falar de reabilitação e de como a mutilação de nossos corpos passa a ser como uma cruz que se tem que carregar por toda a vida, creio que é importante assinalar que cada caso é particular, tendo as próprias vantagens e dificuldades. Mas suponho que no final de contas, há bastante similaridades. Ao princípio está desanimado, é como um cataclismo que sacudiu a tua vida e todos os sentimentos lindos se encontram debaixo dos escombros da mutilação,desejos de que o que te sucedeu seja só um sonho mau de que irás despertar depressa,encontrar-te obstinado com o óbvio, isso não pode ter acontecido a ti, tem que haver uma explicação,mas a única explicação é a que dita o espelho, passam os dias e deprimes-te, pensas que jamais o superarás, deves pedir ajuda para algumas tarefas básicas e isso gera-te uma incómoda humilhação, faz-te odioso/a e frustra-te esta nova situação, as pessoas que tentam animar-te notam a tua resignação, a vida assim não tem sentido, mas esforçam-se a apoiar-te apesar de teu gênio, estás irritado, não desejas nem fazer exercícios nem reabilitar-te, queres mandar tudo a merda, tirar-te a vida, isso parece-te ser uma opção, mas tens medo que ao tentar fique tudo pior, tornaste-te covarde, estás confuso/a, choras nas noites de solidão e demonstras-te uma fera na frente dos/as demais, está ferido, sabes-lo, mas tens que sarar o teu coração para começar a reabilitar-te. Se conseguires chegar até esta parte, já avançaste um passo no caminho até a vitória, a tua vitória, porque esta é a tua batalha, agora deves encher-te de paciência, a frustração está na volta da esquina, uma, duas, três, cem caídas, ninguém disse que seria fácil, mas olha, não o fazes muito bem, mas fazes-lo e só, sem ajuda, uma palmada nas costas, o resto é prática  dizem-te, vamos, se o pudeste fazer uma vez poderás fazê-lo de novo, olha à tua volta, fisicamente está sozinho, e consegues-lo, sorris. Há quanto tempo não sorrias? Não necessitas demonstrar a ninguém, demonstraste-lo a ti, és um/uma guerreiro/a numa de suas melhores batalhas, resignas-te a não morrer, isso é para os/as valentes, uns tropeções mais, as piadas dos de sempre, a realidade encarrega-se de dificultar as coisas,imputa-te, a coisa está difícil, mas não renunciaste, isto é um fato, olha para trás, já avançaste muito para ser derrubado aqui, agora tens motivos para continuar, não podes falhar a todos/as eles/as, a todos/as que te amam e te querem ver feliz, mas sobretudo não podes falhar contigo próprio,  disseste-o uma vez quando as coisas se tornaram difíceis, se és guerreiro/a para toda a vida e apertas os dentes frente à vergonha, algumas vezes dizem-se coisas horríveis, és implacável para contigo, outras tantas vezes sentes-te o mais orgulhosx do mundo, não te deixaste ir abaixo apesar de tudo, os dias avançam, começa a tomar o ritmo a tudo isto, já não te amargas frente ao teu reflexo, começas a aceitá-lo aprendes coisas novas para este contexto, mas não tão novas para a mesma vida, reaprendes a aprender, as coisas agora se veem de um matiz distinto, e uma tarde com o sol ainda como companhia te colocas o ultimato, se não refaço a minha vida para essa data não seguirei adiante com esta loucura.

Finalmente persistes, consegue superá-lo, chega essa data onde tens que fazer a avaliação de teu desempenho e o sorriso na tua cara revelam que passaste a prova com êxito,excedendo as expectativas, já não te sentes nem inválido/a, nem incapacitado/a, nem nada, és um/a guerreiro/a mais, preparado/a para enfrentar tudo.

Com respeito ao meu caso, em particular, suponho que se passou o que se passa com todos/as os/as acidentados/as graves, quis procurar uma solução rápida e singela (a morte), vários/as até me provocaram, alguns/mas de forma muito grosseira, a que pelo menos o tentasse, e assim, agarrando-me à solidariedade, mantive-me firme, até que a recuperação começou a dar os seus primeiros resultados; já com estes antecedentes, ergui, passo a passo, o que podia levantar desta queda – recordo que a obstinação e teimosia jogaram muito a favor – pois havia pessoas que não davam nada pela minha reabilitação (inclusive especialistas), mas no final, o melhor julgamento o emitiria eu, só era questão de tempo; também recordo que passei muitas vergonhas que prefiro não revelar, eheheh, e estas aconteciam-me porque como ia contra o tempo na minha recuperação, tratava de fazer/praticar tudo, inclusive sem haver ensaiado as coisas, e digo que ia contra o tempo, porque eu desejava entrar na cadeia o mais reabilitado possível, não queria nem pensar que um guarda prisional me assistiria, o que por sorte nunca ocorreu. Assim que entrei na prisão, a um 22 de Novembro, com o estômago apertado e a minha moral em alto, dispus-me a aproveitar esse novo cenário de clausura total para acabar de me reabilitar por completo, e não faltaram momentos onde, devido à minha condição física, me ridicularizaram, mas ante estas situações mordia a língua e pensava que cedo ou tarde arrepender-se-iam das suas piadas, eu melhor que ninguém sabia que cuspiam ao céu, rapidamente estaria completamente recuperado e não se atreveriam a falar-me assim depois; o tempo passou, demorou, decorreu lento como uma tartaruga, eu  exercitava-me todos os dias, sem trégua, fizesse frio ou calor, era disciplinado comigo mesmo, e foi questão de prática, paciência e perseverança (os 3 “P” como dizia eu) para me achar totalmente reabilitado e, bem, aqui estou, olhem-me, a um ano da explosão do engenho que quase me mata. Quem disse que morderia o lodo da humilhação para sempre? Quem disse que estaria derrotado para o resto da minha vida?

Quem disse que a luta não nos faz grandes? Se as minhas ideias podem levar-me a perder a vida, também podem levar-me a recuperá-la, essa sempre foi a minha aposta, por isso me lancei à luta com todas as minhas forças, porque reconheço nela a grandeza de romper com as cadeias, e é coisa de observar-me no cotidiano para confirmar essa confirmação, se lhes digo que posso até enfiar uma agulha, assim tal qual estou, sem 8 dos 10 dedos das mãos, posso apertar os atacadores, cozinhar, lavar, fazer bonitos cubos em origami e o que me dê vontade, posso inclusive realizar todas as tarefas que fazia antes, claro, a única pequena diferença, é que demoro um pouco mais, mas este é um detalhe tão pequeno, tão ínfimo, se o comparar com o tão próximo que estive da morte, que o passo por alto, porque depois de tudo, sempre o soube, para os!as revolucionários/as não existem impossíveis, e a minha esplêndida recuperação é prova disso.

O importante é nunca perder o espírito de luta, jamais, não importa o quão terrível se vejam as coisas, mas enquanto não atraiçoares a  tua mente e o teu coração, o demais passa a ser quase um detalhe, os nossos corpos podem fraquejar é certo, mas o que nos faz grandes não tem nada a ver com carne e ossos, o que nos faz gigantes são as nossas convições, o nosso espírito de saber que fizemos o correto.

Agora escrevo estas linhas não só para advertir sobre as nefastas consequências que podem trazer consigo a luta revolucionária mas também para contribuir para a criação de novos. e não tão novos, métodos para enfrentar os difíceis caminhos pelos quais nos podem levar as nossas decisões. E por isso, porque nesta ocasião só posso colaborar com uns quantos exemplos, incito a outros/as companheiros/as a compartilharem as suas experiências, pois se as possibilidades da luta são infinitas,a loucura, estupro, exílio, mutilação, vitórias, torturas, clandestinidade, risos, presídio, dor, delação, amnésia, dependência, golpes, humilhações, morte, todas, nenhuma, são outras tantas mais. E quantos/as dos/as guerreiros/as que combatem hoje na rua contra o poder e os seus desígnios sabem disso? quer dizer, quão preparados/as estamos para assumir os custos da guerra social se não sabemos esse tipo de coisas? podemos falar de não arrependimento sem ter em consideração tudo isso? entendemos o que significa a prisão? o que implica? Compreendemos o que acarreta isso, se um/a companheiro/a ficar louco/a? até onde entendemos as consequências de nos declararmos inimigos do estado/capital? temos todas as condições de perder e aceitamos essas condições, antes de embarcarmos na busca pelos nossos sonhos?

Eu sou de opinião de que se deve saber em que é que estamos metidos/as, para também, assim, se enfrentar as consequências, as assumir e se saír airosamente delas, porque, se o contrário sucede, o que me advertia uma querida e saudosa companheira, converter-nos-emos na pior propaganda de luta.

Se pensarmos nisso, pausadamente, não estranharemos que muitíssimos/as companheiros/as de outrora tivessem escolhido o auto-exílio como resposta a algumas dessas consequências, já que é realmente muito difícil continuar a luta numa região onde mediática e socialmente o sistema grita pelo seu aniquilamento; depois de tudo, como enfrentar o sistema quando este está obcecado em enfrentar-te depois de te ter individualizado, localizado e apontado?

Agora creio que, embora seja certo que o exílio de outrora tenha servido para se escudar na comodidade de uma vida normal, longe da criminalização das ideias revolucionárias, hoje em dia com a vigência da proposta dos/as companheiros)as da Conspiração das Células de Fogo de armar uma Frente Revolucionária Internacional,resulta evidente que não importa onde nos encontremos, a luta continua até ao final, por que não faz diferença se nos encontramos prisioneiros/as, exilados/as noutra região ou clandestinos/as noutro continente, a luta é uma só e supera as barreiras das nações e fronteiras,porque independentemente do idioma que falemos ou da idiossincrasia que nos diferencia, a luta continua a ser contra as estruturas do poder, contra os valores da autoridade e contra as lógicas de exploração e de dominação,irmanando-nos com todos/as e cada um/a dos/as guerreiros/as que lutam pelo mesmo objectivo que nós, a liberdade.

Reconheço-me na luta internacionalista, pois conheço, em primeira mão, os seus excelentes resultados, motivo pelo qual aproveito esta instância para me unir à proposta dos/as companheiros/as na Grécia, abraçando a iniciativa da FAI/FRI como projecto que apela aos mesmos critérios que eu, esperando que este comunicado seja uma verdadeira e real contribuição, sobretudo para os(as companheiros/as que vivem situações similares à minha, e ou os/as que num futuro, não desejado, tenham que passar por isso.

Se agora,a um ano da explosão do engenho explosivo, que quase me custou a vida, me toca fazer um balanço muito positivo de tudo isto, e não negarei que as coisas estiveram difíceis porque existiram dias tão obscuros como a profundidade do mar, onde tudo se desmoronava à minha volta e a minha vida, tal como eu a havia construído ia à merda, mas isto ajudou-me, com a dor que ia contraindo, a entender que tudo isso que havia edificado não o teria feito de maneira suficientemente sólida, para aguentar a práxis de meu discurso, se familiares, amigos/as e companheiros/as não tivessem empreendido o voo ao meu lado; falando de uma maneira muito mais profunda que só fisicamente, ao ver-me nesta situação, em relação à qual muitos pensaram que seria melhor que me afundasse antes mesmo que arrastasse mais pessoas comigo, pois acreditavam que jamais recuperaria desta situação; se todas essas pessoas que me subestimaram,  porque na sua pequenez imaginaram que nem eles/as mesmos/as seriam capazes de ficarem de pé, depois de uma queda como a minha, hoje em dia não estão ao meu lado é só devido à sua mediocridade porque, saibam, carinho não me faltou para as desculpar depois disto, nenhum de nós estava preparado/a para isso. Mas, tal como na rudeza das minhas palavras e da vida, não faltaram os gestos de amor e de entrega absoluta, fazendo saber que, apesar de tudo, ali estariam comigo, nas boas e nas más, até ao final, reafirmando os laços já forjados, talvez só com incrédulos olhares de companheirismo, com uma ou outra conversa dando volta ao quarteirão, compartilhando um lanche, ou criticando-nos fraternalmente no banco de uma praça.

O poder desejou-me afastado da luta, quiseram-me suspender eternamente no 1° de Junho de 2011, e inclusive até ao dia de hoje o tentam, é questão de observar por que sou conhecido ou onde me encontro,mas nada disso me deteve
,continuei, levantei-me, mostrei as minhas garras novamente e segui lutando, enfrentando o inimigo, como nos meus melhores tempos, porque não sou um guerreiro que se tem que recordar com nostalgia, sou um companheiro mais, um mais da manada, só que nos intestinos da besta prisional, a única coisa que me diferencia dos/as companheiros/as na rua é o cenário onde nos enfrentamos, mas se vocês são capazes de arriscar a vossa liberdade e até a vossa vida na luta que nos irmana, porque deveria ser distinto para mim?

Após um ano do ataque falhado à filial bancária do Santander recompus-me com ferocidade, venci – ainda que me sentem no banco dos acusados/as – porque soube tomar as rédeas de minha vida com as minhas próprias mãos, triunfei ante a vida mercantilizada que nos querem impôr e ante a morte como única saída, mas esta vitória não é só minha, que arrogância de minha parte seria acreditá-lo assim, porque se não fosse pelos/as arrojados/as companheiros/as que decidiram entregar-me o seu ânimo e carinho, seria seguro que hoje não estaria escrevendo estas linhas, por isso, nós, os/as combatentes da nova guerrilha urbana, somos a sua derrota. A todas essas belas pessoas que entendem que a guerra social é muito mais que bombas, balas e gasolina e que sabem que a solidariedade é muito mais que um passatempo onde investir o tempo disponível, a todos/as aqueles/as que não podem conciliar o sono enquanto souberem que um/a dos/as seus/suas está a sofrer, a esses/as que se não tem tempo disponível o buscam, faltando ao trabalho ou à aula porque sabem que deles/as depende manter alta a moral do/a companheiro/a, a todos/as aqueles/as que assumem a divertida e excitante aventura de conquistar a liberdade, aos/as companheiros/as da FAI/FRI, ao meu querido amigo Reyhard Rumbayan (Eat),que com os seus nobres gestos me ofereceram a força quando começava a fraquejar, a todos/as os/as absolvidos/as da montagem caso-bombas, que a sua liberdade me significou um sorriso quando parecia haver uma tormenta, as/aos companheiros/as da Conspiração das Células de Fogo, que com a sua dignidade me motivam a continuar a lutar, a Gabriel Pombo da Silva, Marco Camenisch, e a todos/as os/as companheiros/as investigados/as e detidos/as na incursão repressiva contra o movimento anarquista em Itália, ao Mauri que me ensinou que um lobo aperta as suas queixadas incluso depois de morto, aos colectivos autónomos que atacam decididamente, aos/às companheiros/as clandestinos/as, exilados/as e sequestrados/as, aos/ás valentes solidários/as, às consciências rebeldes, a todos/as vós  dedico-lhes estas linhas, mando-lhes um caloroso abraço, devo-lhes o empenho de manter-me com vida porque, têm de o saber, foram oxigénio quando não o havia.

Porque quando vocês gritaram “força companheiro” me senti mais forte que nunca!

Porque nem a prisão, nem o sofrimento, nem a morte, nos deterão!

Viva a Frente Revolucionária Internacional!
Viva a Federação Anarquista Informal!
Morte ao Estado!
A luta continua!
Até à vitória, sempre!

Luciano Pitronello Sch.
Preso Político Insurrecionalista

Espanhol

N.T. O companheiro, Luciano Pitronello, Tortuga, absolvido da acusação de terrorismo, encontra-se em prisão domiciliária

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