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Attica, Grécia: Crónica da revolta no campo de concentração de Amygdaleza

Bem, desculpe incomodá-lo, mas nós aqui nos revoltamos.

Repórter: Você vive num contentor. Está bem aqui ou gostaria de voltar para o seu país?

Imigrante: Não, está uma grande confusão, mas não quero voltar.

Nikos Dendias, Ministro da Polícia e da Repressão (sorrindo ironicamente): Isso leva tempo. Num mês, um mês e meio, ele terá mudado de opinião.

Setembro 2012, campo de concentração de Amygdaleza

E realmente os imigrantes presos mudaram as suas opiniões. Mas não pediram para voltar porque não conseguiram aguentar as condições insuportáveis de detenção e os meios inumanos que o Estado grego tão avidamente utiliza. Transformaram o seu desespero em raiva e revolta.

Na noite de 10 de Agosto de 2013, no isolado e fechado campo de concentração para imigrantes sem documentos em Amygdaleza, o maior desse tipo na Grécia, e após um ano de tormentos psicológicos e físicos, os condenados deitaram fogo aos muros e consciências e, pelo menos por algum tempo,tornaram-se visíveis com os seus corpos e vozes.

A vinte e cinco quilómetros do centro de Atenas, num terreno amplo, inacessível e desolado, onde o arame farpado sucede aos polícias e os polícias sucedem ao arame farpado, os imigrantes revoltosos colocaram fogo nos contentores-jaulas, atacaram os guardas com garrafas de plástico e pedras, tentaram quebrar as portas de ferro e as cercas. Dez deles – temporariamente – seguiram o caminho para a liberdade, fora da que eles tratam por “a Guantánamo grega”.

“Durante uma hora e meia lutámos, 8 pessoas contra 1000. Todos levámos uma grande surra e quase ficámos incapacitados. Se quisessem e tivessem um plano melhor teriam nos matado” (um testemunho obviamente falso de um polícia da equipa de intervenção direta).

Ninguém viu nenhum polícia “incapacitado”. Mas vimos imigrantes espancados arrastados pelo pátio, com correntes. Ninguém conseguiu se encontrar com os prisioneiros gravemente feridos nos quais os guardas se vingaram e que ainda estão “desaparecidos” dentro do campo. Do lado de fora, polícias de todos os matizes e fascistas  patrulharam a área durante dias. Cães desgraçados caçam presas-humanas de cor escura que não ameaçam nada nem ninguém, exceto S. Douros, o prefeito de Acharnon (município ao qual Amygdaleza pertence) e os seus pares que estão “presos dentro das suas casas porque temem os fugitivos”. Que fiquem lá para sempre.

Revolta e solidariedade dentro e fora dos muros vão destruir a brutalidade

Os imigrantes, os que foram presos como responsáveis pela revolta, são levados para o Centro de Estrangeiros da rua Petrou Ralli e para a delegacia de polícia do bairro de Menidi, onde lhes dão as “boas vindas” com pancada e humilhações. Ao resto dos prisioneiros do campo de Amygdaleza não é permitido sair dos contentores, os quais ficam extremamente quentes devido às altas temperaturas. Num lugar onde ainda se exala gás lacrimogéneo, a maioria dos contentores não tem eletricidade nem água. Não lhes é permitido comunicar nem com advogados; ao invés disso, são forçados a limpar o chão do campo de concentração, e até mesmo os carros dos polícias. Um imigrante que não teve nada a ver com os eventos, ficou com contusões na perna, somente porque conseguiu, um pouco antes, falar com o seu advogado.

No Centro de Estrangeiros de Petrou Ralli, tortura e terrorismo racista sucedem-se incessantemente. Todas as noites. “E agora algum amor”, diz o pervertido ser que é chamado de polícia, enquanto lhes dá uma escassa porção da terrível comida, esperando que os imigrantes terminem para que possam tirá-los das celas, um por um, e chutá-los, junto com 6-7 dos seus colegas.

Na segunda-feira, 12 de Agosto, 57 imigrantes do Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Marrocos são transferidos para o tribunal de Evelpidon, em Atenas. Sem advogados (exceto para dois-três que vieram por conta própria e não conseguiram participar do processo) sem tradutores, com um intérprete nomeado pelas autoridades, sem serem capazes de entender o que estava a acontecer e o que iria acontecer; os imigrantes são acusados de crimes dolosos: motim com o objetivo de fuga violenta, dano físico com violência sem provocação, ataque aos guardas, fuga realizada e em intento, incêndio em grupo, dano à propriedade, insulto.

Na realidade a “acusação” é apenas uma: revolta contra o seu inferno quotidiano.

Após dois dias, a procuradoria decide que 24 deles continuarão sob custódia policial, o que significa que estão detidos em isolamento nas caves de Petrou Ralli. Pouco tempo depois, são enviados para as prisões de Korydallos e outras prisões do país.

Os restantes serão reenviados para Amygdaleza ou outros centros de detenção. O caso permanece em aberto. Até agora 65 imigrantes permanecem sob acusação. Dos 10 que conseguiram escapar, 4 foram presos.

Durante três dias, imigrantes com sede, fome e espancados, alguns de pés descalços, mas com dignidade e de cabeça erguida, são arrastados de edifício em edifício num tribunal cheio de polícias, mas vazio de olhares de solidariedade e gestos de apoio.

O promotor proíbe a concentração solidária. Esquadrões de polícia expulsam à força um grupo de 30 pessoas provenientes do espaço anti-autoritário, anarquista e autónomo, e de assembleias de bairros que vieram mostrar a sua solidariedade. Essas pessoas permanecem em frente à entrada do tribunal, onde colocam faixas e gritam palavras de ordem à chegada dos imigrantes.

Para que algumas garrafas de água e sumos de laranja cheguem até aos imigrantes, precisa-se da intervenção de um advogado na procuradoria. Mesmo assim, é proíbido o uso de palhinhas, porque como diz o comandante dessa asquerosa operação: “Οs imigrantes podem escapar usando este objeto. Além disso, esta intervenção é um insulto para a polícia grega. Nós providenciamos-lhes o que necessitam.”.

(Realmente…  Amygdaleza e todos os outros centros de detenção são, entre outras coisas, um grande negócio para as contratadas empresas de distribuição alimentar que se aproveitam dos financiamentos europeus. Para os 1600-2000 detidos em Amygdaleza – o número exato não é conhecido – a União Europeia paga todos os dias 120.000 euros!, dinheiro que se transforma nos miseráveis alimentos e nos inexistentes materiais de limpeza).

Não há lei. Os acusados não têm “direitos”. Não existem repórteres, sensíveis mas ausentes burocratas, não existem grupos, nem redes, nem organizações “pelos direitos dos imigrantes e refugiados”. Centenas de organizações com nomes pesados e declarações ainda mais pesadas que na verdade não têm valor nenhum. Não há “comunidades de imigrantes”, só há ONGs que são financiadas para ficarem caladas. NINGUÉM.

Existem somente algumas “ordens de cima” e a descarada zombaria. Existem as mentiras orquestradas do Poder e a inversão das palavras que abre caminho para o horror dos fatos, onde a caçada diária aos imigrantes nas cidades e na periferia se chama operação “Xenios Zeus” [deus da hospitalidade na Grécia antiga], e as criptas para humanos exilados, cuja única “culpa” é a sua existência, denominam-se “centros de hospitalidade”. Há também o ruído dos meios de comunicação dominantes e dos formadores sistémicos da opinião pública, que visam conscientemente e de modo organizado o mais “perigoso” inimigo da sociedade grega, o “intruso”, o “incivilizado”, o “impuro”, o/a imigrante, com ou sem documentos.

Mesmo assim, e apesar de todas as torturas e humilhações, apesar da nula ou insuficiente solidariedade demonstrada, no tribunal os imigrantes pareceram ter força e coragem para fazer o sinal da vitória e sorrir.

Não é nem o prolongamento da privação da sua liberdade de 12 a 18 meses sem terem cometido nenhuma “ofensa criminal”, nem o  bloqueio por todos os meios da sua “legalização“, nem as miseráveis condições da sua detenção e higiene, nem mesmo o desespero do isolamento ou a falta de uma mínima perspectiva esperançosa, o que constitue as causas da sua dignidade revoltada. Tudo isso pode ser muito importante, mas a sua principal razão é a sede e a vontade de vida e liberdade, a espontânea resistência contra a brutalidade armada até os dentes.

Amydaleza, Corinthos, sedes policiais…
Revoltas, greves de fome, suicídios

No dia 13 de Abril de 2013, centenas de imigrantes detidos em vários campos de concentração e sedes policiais, revoltam-se através de uma greve de fome, que em 24 horas se estende a muitos centros de detenção espalhados por todo o país, com a participação de cerca de 1800 pessoas presas.

A 24 de Abril de 2013, 12 Afegãos e 4 Sírios iniciam uma greve de fome no porto de Mytelene (ilha de Lesvos), recusando a comida trazida por voluntários locais que cuidam da alimentação dos imigrantes e refugiadas que vivem no porto.

A 23 de Junho de 2013, um imigrante de vinte anos, da Costa do Marfim, comete suicídio dentro da delegacia de polícia em Grevena, onde estava preso à espera de ser “reenviado” para o seu  país.

Na sexta-feira, 12 de Julho, um imigrante de 26 anos do Paquistão é encontrado enforcado nos sanitários de uma sede policial da cidade de Servia, região de Kozani. Tinha sido preso porque não tinha os documentos apropriados para estar na Grécia.

No sábado, 27 de Julho, o refugiado afegão, Mohammed Hasa, prisioneiro no campo de concentração de Corinthos, com infecção respiratória e falência pulmonar, morre, ou para ser mais preciso é assassinado por um regime que durante 11 meses o proíbe de ser transferido para o hospital. No hospital, foi-lhe atribuído um documento de suspensão da sua deportação por 6 meses, por “razões técnicas”. Verdadeiramente livre, nem mesmo na morte.

No sábado 24 de Agosto, um refugiado do Afeganistão sobe às grades da sua janela, no segundo andar, e cai no vazio à altura de 5 metros, acabando com múltiplas fraturas e  trasladado para o hospital com ferimentos graves.

Na quarta-feira, 28 de Agosto, 400 imigrantes, detidos há mais de um ano no centro de detenção de Orestiada, iniciam uma greve de fome. Todos demandam apenas uma coisa: a sua liberdade.

Nos últimos 3 ou 4 meses, têm havido múltiplas tentativas de suicídio em vários campos de concentração, durante os quais aconteceram muitos incidentes de protesto, de resistência e da consequente represão, fatos sistematicamente escondidos pela polícia e pelo governo.

E a já longa fila dessas assassinas políticas anti-imigração cresce ainda mais. Imigrantes, nas suas tentativas para passar as fronteiras sem terem os documentos necessários, encontram mortes trágicas, quer seja por afogamento no mar Egeu ou no rio Evros, ou pelas duras condições dessa viagem tormentosa. Mesmo que consigam entrar no país, têm que enfrentar os pogroms policiais, as facadas dos fascistas, as espingardas dos patrões e os merdas racistas “donos das casas”.

“Quando você os prende, você limpa-os, vacina-os, isola-os e dá-lhes a opção de voltarem para casa”, diz o ministro Nikos Dendias.

Que “opção”?  Mesmo os imigrantes que pedem para voltar para os seus países continuam prisioneiros por meses sem nenhuma explicação, porque o principal intuito dos governantes é fazê-los “desaparecer” do espaço público e isolá-los em distantes e inacessíveis prisões.

E ele continua: “Fechámos o rio Evros. E o que se lhes pode dizer? Se vier para a Grécia você não será livre, não andará por aqui e por ali como quiser, não pode ir a qualquer lugar, apanhamos-te, colocamos-te em centros, ficará lá e a única maneira de sair de lá é assinar um formulário e retornar para o seu país, ou podemos enviá-lo nós.”

Pois, a unica coisa que “se esqueceu” de acrescentar é “morto ou vivo”.

Ou com a morte que o Poder provoca ou com a vida que a luta pulsa

A revolta dos condenados em Amygdaleza, as insurreições que ocorreram antes dessa e todas as que lhes seguirão, apesar de todas as razões implícitas que as causam, revelam claramente a determinação dos imigrantes de não serem “enterrados vivos” nessas instalações de confinamento, assim como uma vontade inabalável de se insurgirem por todos os meios contra os guardas.

É um ataque contra o estado racista, a autoridade policial de Dendias, a discriminação difusa racial e social que se incorpora no pensamento e nas ações dos partidos centro-direitistas, desde a “Esquerda Democrática” até aos membros da gangue da Aurora Dourada, os seus votantes e todos aqueles que saúdam e torcem pela expansão desses infernos.

A solidariedade aos imigrantes insurretos – a única parte desta sociedade que ainda luta  durante este “verão de ares parados e frouxidão dos movimentos” – é uma relação reciproca de uma luta contra a exploração, a humilhação, a escravidão, a morte, por outras palavras contra tudo o que representa o Poder, os pequenos e grandes patrões, os fascistas e os seus lacaios.

Os imigrantes, com a sua revolta, defendem aquela parte da sociedade que não está ainda desmoralizada. Assim, nós temos de os defender na sua diária insuportável realidade.

Estamos e estaremos ao seu lado.

FORÇA E SOLIDARIEDADE AOS IMIGRANTES REVOLTOSOS DE AMYGDALEZA
PELA DEMOLIÇÃO DOS CENTROS DE DETENÇÃO DE IMIGRANTES

Iniciativa no lager
Agosto de 2013

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