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[México] Violência antagonista e via armada em ambientes urbanos a partir da perspectiva anarquista

[Excertos de uma conferência de Gustavo Rodríguez, realizada no Centro de Informação Anarquista (CEDIA), na cidade do México, no sábado de 8 de Outubro de 2011.]

Apenas quando é necessário alguém se defender, ou defender outros da violência é que a violência é justificável […] O escravo, ao encontrar-se continuamente em estado de legítima defesa – contra o patrão, contra opressores – tem sempre moralmente justificada a sua violência, tendo esta de ser regulada só segundo o critério da sua utilidade e o da economia do esforço humano e dos sofrimentos humanos.
– Enrico Malatesta, «Umanità Nova»
25 de Agosto de 1921

[…]

O debate à volta da crítica destrutiva do sistema de dominação – através do emprego da violência antagonista, da via armada, a propaganda pelo facto, a expropriação e o ataque direto aos representantes do poder, estratégias conducentes à autogestão da luta e à ampliação da insurreição -generalizar-se-ia em setores amplos do anarquismo antagonista, atingindo uma dimensão internacional. “Notas para discussão, interna e externa” seria o documento que acabaria por sintetizar as inquietações e reflexões do primeiro momento do debate e que seria publicado em Anarchismo e em Contrainformacione. Estas reflexões profundas, inevitavelmente, levaram a que se questionasse a pertinência da “guerrilha”, como conceito e como método de luta, a partir de uma perspectiva anarquista.

O termo guerrilha, faz referência a “guerra pequena” ou “conflito menor” ou “de baixa intensidade”. Por isso, está implícito no termo a referência a “tropa ligeira” ou “saída” dedicada a realizar breves escaramuças de assédio às forças regulares. Começou a ser utilizada como tática em Espanha, durante a invasão napoleónica, conformando pequenos grupos de civis, treinados e comandados por militares experientes, de modo a assegurar o ataque constante contra tropas de ocupação francesas. Depois a guerrilha, como tática e estratégia, foi utilizada para libertar, em qualquer guerra assimétrica. A partir daí, o termo foi empregue para designar esses pequenos grupos de civis treinados militarmente, convertidos em “tropa” irregular, dedicados a perseguir o exército, em operações rápidas, tendo a seu favor o conhecimento do terreno de operações, a mobilidade e o factor surpresa. Ao contrário das guerras convencionais, a “guerra de guerrilha” é flexível, menos geométrica e muitíssimo mais móvel.

No caso particular de “guerrilha urbana”, como mencionámos no começo, esta táctica tem os seus primórdios no ataque anarquista ao sistema de dominação, com o claro objetivo de infligir dano sistemático às instalações do Poder (Estado-capital e clero) e aos representantes de dominação, às pessoas que exercem o poder e aos seus lacaios. A sua estratégia se centra no ataque ao coração do Estado e do capital: a cidade. A atuação da guerrilha urbana está destinada a afetar o “bom funcionamento” do sistema. O conjunto dos seus ataques serão planeados contra as instituições de repressão (polícia, justiça, militares, etc.) combinando a “propaganda armada”, a execução, coleção de armas e munições, expropriações, a sabotagem do aparelho de produção, a destruição de bens, a solidariedade com os presos e o ataque dos meios de alienação massiva. Esta combinação de ataques tem como objetivo a sua extensão e reprodução, salientando o combate à tona contra a dominação, estando concebido para desenvolver a “consciência revolucionária” entre a multidão alienada. Assim, segundo esta estratégia, as “pessoas comuns” abandonariam a passividade habitual, juntando-se à insurreição, uma vez que comprovara a vulnerabilidade do sistema de dominação. No entanto – e reside aí a crítica anarquista contemporânea– a posta em prática da “guerrilha urbana” clássica, requer o concurso de “especialistas”, de “técnicos” especializados e esto traz consigo a aceitação do denominado “revolucionário profissional”, o culto das armas e uma série de “necessidades” particulares a atender (casas seguras, sistemas de inteligência e contra-inteligência, hierarquias, etc.) acabando por abandonar por completo as ideias anarquistas.

Neste sentido, Alfredo Bonanno, nos recorda em “O prazer armado”, que para as organizações de guerrilha tradicionais é inevitável se cair no perigo tecnocrático, já que, mais tarde ou mais cedo, terminam a impôr os seus “técnicos”. Neste folheto, assinala-nos que a estrutura insurrecionária que encontra o gozo na ação dirigida à destruição de dominação «considera os meios utilizados para levar a cabo tal destruição como instrumentos, como meios». Quem empregar estes instrumentos não deve converter-se em seu escravo. Assim como, quem não sabe usá-los, não deve se transformar em escravo dos que sim, sabem utilizá-las. A ditadura dos meios é a pior das ditaduras […] É necessário desenvolver uma crítica das armas. Tem havido demasiadas sacralizações da metralhadora e da eficiência militar.

A vía armada não é algo que diga respeito únicamente às armas. As armas não podem representar, por si próprias, a dimensão revolucionária. É perigoso reduzir a realidade complexa a uma só dimensão e um só objeto. De facto, o jogo contém este risco, o da redução do experimento vital a brinquedo, convertendo-o em algo mágico e absoluto. Não por acaso, a metralhadora aparece como símbolo de muitas organizções revolucionárias combatentes. Devemos ir mais fundo para compreender o profundo significado da luta como prazer, escapando às ilusões e às trampas da representação do espectáculo mercantil, através de objetos míticos ou mistificados». Por isso, nos sugere recusar todos os papéis, inclusive o de “revolucionário profissional” com o objetivo de: «romper o cerco mágico de dramaturgia mercantil», consciente de que a via armada deve contornar a divisão das tarefas e a atribuição de papéis impostos pela ideologia da produção, recusando o “profissionalismo”.

A moral, subjacente a esta reflexão, voltamos a repeti-lo, não situa o problema nas armas mas sim em quem as usa, como as utiliza e para que as emprega; centra-lo no tipo de estrutura que se desenvolve e, nesta situação, encontram-se as estruturas desempenhadas pelas minorías insurrecionárias. O que se encontra obsoleto na “guerrilha urbana” clássica é a sua “especialização técnica”, ou seja, o papel preponderante que lhe é atribuído pelo conhecimento das armas, a sacralização das mesmas e o rol do “revolucionário profissional”, junto a toda a infraestructura que isto pressupõe. Esta reflexão deixa-nos a claro que não é suficiente ampliar a luta a todos os confins, mas que há que a prolongar, também, a cada faceta da nossa vida cotidiana. Aí radica a autogestão da luta e o desenvolvimento de “grupúsculos” antagonistas, de minorías activas. Da reflexão anarquista – a partir de experiência de lutas temos percebido o papel recuperador das velhas estruturas leninistas, pelo que temos reafirmado os nossos princípios de ação direta frente aos esquemas anquilosados de “profissionalização”, de luta, invalidados, de antemão, na guerra social contemporânea contra a dominação renovada.

Estamos conscientes que as minorias antagonistas correm o risco de se transformar no espectáculo radical das lutas se no impulso da confrontação permanente não forem capazes de articular a ampliação da luta através do desenvolvimento da consciência antagonista. A tomada de consciência anti-autoritária passa, sem dúvida, por um processo de secessão. Por um ponto de ruptura total com o sistema de dominação. O sistema penetrou o ADN do “cidadão”. O Estado e o Capital são parte do nosso corpo. Por isso existem, porque são reproduzidos por nós a cada passo. Essa é a razão pela qual encontramos tão frequentemente, entre nós, a defesa inconsciente de dominação, a defesa do Estado-capital. Cada vez que pedimos mais trabalho em vez de lutar pela destruição do trabalho: pedimos mais capitalismo. Em cada ocasião em que se busca “segurança”, em que exigimos “maior pressuposto” para a saúde, educação, casa, etc.: reclamamos mais Estado. Essa via não conduz à libertação total, reduz-se à suplica de uns quantos vínculos que possam tornar um pouco mais largas as correntes.

A “ORGANIZAÇÃO”, assim com maiúsculas, que tanto preocupa a todos e todas e que na prática se reduz a siglas, irmandades e seitas, será fruto do desenvolvimento da consciência antagonista e da ampliação das lutas. Aa guerra social imporá a necessidade de organização, esse é o verdadeiro avanço do movimento real. O antagonismo permanente das minorías atuantes é a proposta de ataque, aquí e agora, às estruturas de dominação e aos seus representantes, para salientar, em primeiro lugar, que o inimigo é vulnerável e para demonstrar que os/as nossos/as companheiros/as sequestrados/as pelo Estado, não estão sós antes contam com toda a nossa solidariedade. O peso específico das minorías antagonistas, dos grupos de afinidade em conflito permanente, não se reduz ao número de ataques – nem nos danos que causaram no inimigo, as cada vez más potentes explosões – a gravitação destas minorías atuantes radica no contágio, na ampliação geométrica da luta e na tomada de consciência anti-autoritária.

Por isso, por trás de cada explosão, de cada bala percutida, da mão de quanta expropriação se faça, pondo em prática qualquer manifestação de violência antagonista, tem que estar sempre presente o nosso ideal, deixando manifesto que a nossa luta é pela libertação total, pela destruição definitiva do sistema de dominação, pela Anarquia.

fonte: liberacion total (em inglês)

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