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Prisões inglesas: Carta da presa anarquista Emma Sheppard após a sua condenação

all my soul within me burning. (2)Sábado, 28 de Fevereiro 2015

Acabei de me ver na televisão, o que espero ser uma experiência que nunca irei repetir. No entanto, animou toda a gente na ala! Pensei em escrever para tentar  processar algumas das coisas que têm acontecido. Mas não me estou a sentir no meu máximo de eloquência (além disso estou obviamente limitada pela minha vigilância) portanto pensei em usar algumas das citações que me têm inspirado desde que estou na prisão.

Dolly Parton disse, “Se tu queres um arco-íris, tens que aguentar com um pouco de chuva.” Sinto-me realmente sortuda por ter tanta gente na minha vida com quem enfrentar a tempestade e feliz por ter menos chuva do que pensei que teria. Deixa-me triste o facto de que isto possa ser devido à minha imagem como uma “boa menina que se tornou má”. Porque é que a empatia e a raiva não podem coexistir? Para mim faz tudo parte da solidariedade. Eu não sou especial. Apenas faço o que sinto ser certo. Penso que é por causa do meu género (e talvez  da minha classe social) que estas distinções são feitas.

“Quando estiveste com medo de alguma coisa tempo suficiente e isso começa a passar é porque a coisa terrível se torna um alívio. Pois nas entranhas da ruindade não há mais medo.”– Lionel Shriver

Foi só após a sentença que eu percebi bem o quanto tinha andado a temê-la. Os media, a horrível discussão da ‘personagem boa vs. má’, o meu ‘ arrependimento’. Tudo isto me enoja. Mas agora eu sinto uma calma fatigada. Eles dizem que eu sou ‘demasiado inteligente’ para não gostar da polícia e que as minhas acções impediram a polícia de lidar com as causas da violência doméstica e do abuso infantil. Eles não percebem quantas mulheres estão aqui comigo devido a estas questões serem sistematicamente ignoradas? Tudo isto está podre por dentro!

Não fiquei surpreendida mas com raiva ao ver que o tribunal se focou nas minhas expressões de solidariedade com pessoal em Jackson e na Grécia mas ignorou as minhas questões bem reais sobre a polícia neste país que eu extensamente enumerei: as mortes sob custódia e nas ruas, as prisões de imigração e o racismo institucional, o parar e revistar, o uso de bastões elétricos, e por aí fora. Também tentei salientar as minhas próprias experiências com violência policial (fazer mira sobre mim e xs meus/minhas compas), repressão e tentativas de infiltração. Mas consigo perceber porque é que eles optaram por ignorar todos estes pontos e desviar a atenção para outro lugar. Lamento ter sido apanhada e o impacto que isto teve na minha família e outrxs com que me preocupo. Estou determinada a nunca mais voltar aqui e sei que como mulher marcada vou ter que ficar no lado “certo” da lei. Mas já estou a pensar em muitas formas de apoiar pessoas que enfrentam o “estado” prisional. Não só porque me preocupo com as outras pessoas mas porque estou com raiva!

Vou deixar-vos com uma das minhas citações preferidas do Dylan Thomas:

“Não te tornes gentil nessas boas noites
A velhice deve queimar e delirar ao fechar do dia,
Ira, ira contra a morte da luz”

Solidariedade, amor, ira e rappers dos amanhãs fodidos.

Em X

Charada do Arame Farpado

Eu sou uma terrorista, e uma liberal
Eu sou um homem, e uma mulher extraviada
Eu sou atenciosa, e imprudente
Eu sou uma anarquista, e uma não anarquista
Eu sou inteligente, e tola
Eu estou arrependida, e desafiadora
Eu estou sozinha, e bem apoiada
Eu sou queer, e discriminatória
Estou triste, e sem nenhum remorso

Quem sou eu? Eu, sou eu, Em (supostamente)

Desde o Ano Novo que tenho sido chamada todas estas coisas e estou cansada dos julgamentos de outras pessoas. Do jogo de arrasta do tribunal, o que me sufocou. De outras presas que me questionam e me ameaçam. Dxs “compas” que escrevem a repreender-me. Dos media que constroem uma imagem de mim. Da bófia que está ‘preocupada com o meu bem estar’.

Eu nunca disfarcei o desprezo que tenho pela polícia. Tentei minimizar o impacto da minha detenção da forma que fiz pelas pessoas com quem me preocupo mas sem me vender.

Eu ainda sou uma anarquista zangada com um coração desafiante. Mas eu estou cansada. Não quero simpatia. Manterei o queixo levantado e a cabeça baixa.

Emma Sheppard  A7372DJ
HMP Send, Ripley Road
Woking, Surrey, GU23 7LJ
(England, UK)- Inglaterra, Reino Unido.

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