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[Prisões italianas] Uma carta da anarquista Anna Beniamino sobre a Operação Scripta Manent e não só…

[ Pouco depois desta carta ter sido enviada, soube-se que as investigações sobre a operação Scripta Manent foram fechadas, por isso agora aguarda-se a audiência preliminar, na qual o juiz vai decidir se coloca ou não em julgamento xs companheirxs visadxs.]

SCRIPTA MANENT

A acusação de Turim decidiu colocar uma tendência anarquista inteira em julgamento: o anarquismo anti-organização. Não se trata de uma enormidade sensacionalista ou defensiva, é o que a juíza investigadora de Turim, Anna Ricci, promulgou com os mandados de prisão emitidos em Julho de 2016, e aplicados em Setembro, provavelmente para evitar interromper as férias de verão de algum funcionário púbico.

A escolha dos inquisidores é clara a partir do enquadramento ridículo surgido nos papéis de autorização de detenção, um produto do encontro deletério entre a mente de algum bófia e a leitura apressada de um resumo da wikipedia.

O quadro dá forma a uma visão repressiva-maniqueísta de uma “anarquia social“, a boa e inofensiva e de uma (anti-social e anti-classes) “anarquia individual“- violenta e apetecível à repressão – cujo método é o “modelo anti-organizacional”.

Ao fazer as necessárias distinções, este quadro visa definir um campo específico, para se criar uma gaiola, de modo que a partir de um “insurrecionalismo” genérico, (um subproduto do modelo anti-organizacional), sempre violento e passível de castigo em diferentes graus, subespécies possa ser puxada para fora para formar diferentes vertentes da investigação 1 para a polícia italiana: ‘insurreccionalismo clássico‘, ‘insurreccionalismo social‘, ‘eco-insurreccionalismo‘ e a ‘federação anarquista informal‘.

Que diferentes tensões e tendências existem dentro do anarquismo é um fato, mas também é verdade que este tipo de categorização rígida é uma característica inerente à mentalidade e requisitos dos inquisidores, que se dedicam a delimitar uma área específica para fazer as suas manobras como melhor puderem: é dentro desse espaço que a seguinte operação se encontra.

Historicamente, a solidariedade com xs prisioneirxs revolucionárixs tem sido um ponto focal de interesse para xs anarquistas e uma maneira de nos unirmos e construir uma sensibilidade rebelde: solidariedade revolucionária e não a solidariedade com xs revolucionárixs.

Concebida pela Digos de Turim e após o regresso dos promotores, em 2012 – na sequência de 20 anos de tentativas repressivas recorrentes e fracassadas – a operação Scripta Manent levou à detenção de 5 anarquistas: A.M., V.S., D.C., M.B., A.B., todxs já sob investigação e/ou presxs, a seguir a várias publicações anarquistas sobre ação e repressão, especificamente, Pagine in Rivolta 2, o boletim Croce Nera Anarchica 3, e KNO3 4. Além disso, havia os mandados de prisão para A.C. e N.G, dois companheiros na prisão desde 2012, após um ataque ao director-geral da Ansaldo Nucleare, Adinolfi, que foi reclamado em julgamento em Outubro de 2013 como o Núcleo Olga (FAI/FRI). Durante anos, eles haviam sido conhecidos como editores de Pagine in Rivolta e Alfredo já havia sido processado pela KNO3.

Quatro outrxs anarquistas foram submetidxs a investigação – todxs tinham sido já presxs, durante a operação Ardire 5, parte da qual converge no presente processo judicial – junto com mais 4 pessoas, cujas detenções o juiz se recusou a validar no mandado de Julho e conduziu à tentativa infrutífera de apelação do promotor, em Outubro de 2016. Além disso, 32 assaltos policiais foram realizados  em toda a Itália, durante os quais um companheiro e editor da CNA foi preso, encontrando-se ainda preso sob o regime AS26 6.

A INVESTIGAÇÃO AINDA ESTÁ A CAMINHO

A operação está a ser conduzida pelo promotor Roberto Sparagna, novo nos chamados procedimentos anti-terrorismo – mas bem conhecido por ter corrido os julgamentos do chamado crime organizado. Não se sabe se esta operação estava em baixo para ele ou pela a entrada de polícias de Turim: a última hipótese parece muito mais provável, visto a maior parte do inquérito ter sido realizado e arquivado pela Digos ao longo dos anos e por causa das fotos pequenas com acontecimentos de fundo como os “cumprimentos do Dr. Petronzi” (ex-chefe de Digos de Turim), que Sparagna se certificou de estender aos presos, durante uma das suas tentativas de interrogatório.

Pouco importa saber se o promotor é essencialmente um fantoche/ventríloquo ou se é dirigido pela sua própria vontade; a intenção declarada é reprimir e silenciar uma componente anarquista que sempre apoiou, e continua a apoiar, a ação direta, a solidariedade com prisioneirxs revolucionárixs, as práticas multiformes de ação destrutiva anarquista e a rebelião permanente contra o conformismo político dentro e fora do meio social do movimento.

Todos são cobradxs com o artigo 270bis, alguns desde 2003, outros desde 2008 7 relacionados com a FAI/FRI em vários graus, tanto como “promotorxs / organizadorxs” como também como “participantes”.

A.C. e N.G. também são cobradxs com o artigo 280bis para uma série de ataques 8 realizados de 2005 a 2007 – com base no que é definido como um “enquadramento sério de investigação” mesmo que, na realidade, xs mesmxs compas já tenham sido investigadxs pelos mesmos polícias, com a mesma “evidência” tanto logo após os mesmos eventos como em 2012 9, usando o arsenal usual de telefones a tocar, escutas, gravação de vídeo, decantação, amostragem de DNA, etc. e os casos tenham sido arquivados.

Lançada sobre o que se passou antes das prisões de 2012, esta investigação é uma tentativa de cobrança associada ao caso de Adinolfi, ferindo e investigando toda uma área política de companheirxs que expressaram solidariedade com os detidos e com a sua acção: a polícia usou o artigo 270bis e os seus chamados “crimes de intenção“, a fim de examinar o que já havia passado pelas mãos de vários promotores italianos, juntando tudo sob a sua jurisdição revivendo e requentando uma série de arquivos de casos que anteriormente tinham sido arquivados.

Esta tentativa de juntar tudo também é mencionado na ordem judicia e já se tinha infiltrado nos media amplamente, nos últimos anos, bem como em Agosto de 2016, com artigos de jornal que descreviam ‘Cimeiras anti-terrorismo‘ entre os diferentes procuradores e feito grandes reivindicações de ‘maus mestres’ e ‘infiltrados violentos’ em contextos que em si mesmos, eram democraticamente aceitáveis.

Desta vez, tendo seguido um formato temporal e lógico que inverte a sequência clássica de ação/repressão, a repressão procura retroactivamente ações e posições políticas não consolidadas ao longo de 20 anos, como restrição e um aviso contra a corrente “excessiva” de demonstrações de solidariedade. Estes são claramente destinados a reprimir a não desejável solidariedade e a propagação de um sentimento anarquista que fala abertamente sobre prisioneirxs e ações, publica e apoia-los.

As ambições da polícia visavam ainda mais alto, como se torna evidente nos ataques, prisões falhadas e acima de tudo, no quadro acusatório que se estende por 20 anos de ações e publicações anarquistas.

A digressão começa com o julgamento Marini 10 em 1996 e  termina com a corrente Croce Nera Anarchica, traçando uma linha melhor que óptima, que começa a partir de críticas de como o julgamento de Marini foi conduzido, passa através dos vários artigos e alegações apresentadas em Pagine in Rivolta, KNO3 e CNA, terminando com escritos contendo discussões e apelos para se estar presente no julgamento Adinolfi (COM AS NOSSAS CABEÇAS ERGUIDAS E AQUI E AGORA) e, finalmente, com a CNA de hoje.

É por isso que não é um exagero alegar que este processo legal é um dos que se está a prolongar até a um sentimento anarquista, mesmo se ele está a tentar se aprimorar dentro do círculo: pedras angulares do pensamento anti-autoritário e do método como ação direta, a rejeição da representação, a afinidade e a informalidade, a solidariedade revolucionária e ajuda mútua, tornam-se palavras e em papel de lixo dos inquisidores, a matéria-prima perigosa que deve ser reprimida logo que surja.

Não é simplesmente um “crime de opinião” o que se está a submeter a julgamento, nem tampouco a censura da democrática liberdade de expressão: esta é a guerra que a autoridade está a travar contra o vínculo entre pensamento e ação que se encontram na base do anarquismo.

Tentando atacar as publicações, blogs ou qualquer outro meio de comunicação que os anarquistas decidam usar, a repressão apenas reafirma a validade preciosa  desses meios: a de serem um espinho cravado na subjugação e no silêncio.

Anna
Prisão de Latina

1 A acusação de Turim veio produzindo vários processos judiciais com base nesse quadro, nos últimos dois anos, o que resultou tanto na tentativa de colocar 3 eco-anarquistas – previamente sentenciados na Suíça por tentativa de sabotagem à IBM – em julgamento uma vez mais pelo artigo 270bis como na investigação e acusação dos anarquistas envolvidos num fundo de solidariedade para presxs, através de incursões e mandados, usando-se o mesmo artigo 270bis.

2 Pagine in Rivolta foi publicada sob o subtítulo “revista anarquista revolucionária” de 1997 a 2002, com 14 números que tiveram uma circulação variável que chegou a mil cópias, por vezes. Continha artigos de análise e crítica do movimento anarquista, cronologias de ações diretas, reivindicações, listas de prisioneirxs e notícias sobre a repressão.

3 [A primeira das séries da Cruz Negra na língua italiana foi a versão histórica publicada de 1969 a 1973 em apoio aos opositores espanhóis a Franco, com o envolvimento adicional de Pino Pinelli e da Cruz Negra Anarquista de Stuart Christie]. O boletim de CNA visado pela repressão é o que foi publicado de 2001 a 2005, sendo o CNA actual publicado desde 2014 com um blog e um jornal. Os editores da Croce Nera Anarchica de 2001/2005 foram os alvos da Operação Croce Nera de 2005, uma operação 270bis, que levou à prisão de sete companheirxs que resultou em nad (três dos quais estão entre xs que foram investigadxs no âmbito do Scripta Manent.

4 KNO3 saiu em 2008 como uma única edição que foi legendada como “jornal periódico anarquista revolucionário”. Em 2008 foi objecto de uma investigação 270bis, a Operação Shadow [Sombra], liderada pela procuradora de Perugia, Emanuela Comodi, em colaboração com as forças dos carabineiros ROS, em que o crime associativo foi abandonado. durante o julgamento em primeiro grau; em 2015 o julgamento de apelação resultou numa sentença contra A.C. e A.B., enquanto um terceiro companheiro foi investigado para o artigo 302, com a circunstância agravante de terrorismo por artigos publicados em KNO3; outros companheiros foram sentenciados por sabotagem de uma via férrea e pelo roubo de um carro.

5 A Operação Ardire começou em Perugia com o promotor Comodi, em colaboração com as forças dos carabineiros ROS e levou a sete detenções em Junho de 2012. Baseou-se no artigo 270bis e referiu-se a uma série de ataques reivindicados pela FAI / FRI entre 2009 e 2012. A jurisdição do caso passou de Perugia para Milão na sequência de uma decisão de um tribunal superior nos tribunais de recurso e para alguns dxs acusadxs, SF, EDB, GPS E G.L.T., foi passado de Milão para Turim e trazido para o Scripta Manent. Todos os prisioneiros foram libertadxs em 2013, após terem cumprido o prazo máximo.

6 D.C. foi preso durante um dos ataques no âmbito do Scripta Manent, após material elétrico para uso comum (pilhas e lâmpadas de 9 volts) ter sido encontrado em sua casa. A Procuradora Francesca Polino, de Roma, abriu um processo separado contra ele, enquanto o mantém no regime AS2 de alta segurança.

7 A partir de 2003, porque este é o ano identificado como o início da FAI, após o ataque ao ministro do Interior na época, Prodi, e por causa do texto de reivindicação por ele. Para alguns dos acusados, é 2008, porque elxs já tinham sido postos sob investigação para o mesmo ataque, sem terem sido formalmente acusadxs.

8 Refere-se a um dispositivo explosivo contra as forças dos carabineiros RIS, em Parma, em Outubro de 2005, uma ação reinvindicada pela Coop. Artigiana Fuoco e Affini/FAI (ocasionalmente espectacular) /FAI; o pacote explosivo /   incendiário enviado ao então prefeito de Bolonha Sergio Cofferati em Novembro de 2005, também reivindicado pela Coop. Artigiana Fuoco e Affini / FAI; o duplo ataque explosivo ao centro de formação de carabineiros em Fossano (CN), em Junho de 2006, reivindicado pela FAI / RAT; as encomendas explosivo/incendiárias enviadas ao então prefeito de Turim, Chiamparino, ao diretor de Torino Cronaca, Beppe Fossati e também colocados nas instalações da Coema Edilitia, uma empresa envolvida na construção da CIE em Turim em Julho de 2006, todos reivindicados pela RAT / FAI ; os 3 dispositivos explosivos partiram em seqüência do bairro Turim de Crocetta em Março de 2007 e foram reivindicados pela RAT / FAI.

9 No Verão de 2012, durante a investigação e posterior detenção de A.C. e N.G., promotores de várias jurisdições italianas reabriram uma série de processos arquivados relativos aos ataques que a FAI tinha reivindicado nos últimos 10 anos.

10 Em 1995, cerca de trinta anarquistas foram presxs e julgadxs pelo procurador de Roma, Antonio Marini, em colaboração com as forças de carabineiros ROS, para o artigo 270bis, além de uma série de delitos específicos. A acusação associada, referente à chamada organização ORAI foi descartada em 2004, e uma sentença por propaganda subversiva e outras ofensas específicas foi confirmada.

Croce Nera Anarchica, publicação não periódica, edição no.3, páginas 2-4

via  325 nostate em inglês

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