Ferrara, Itália: Tratamento psiquiátrico obrigatório e gás lacrimogéneo

Este comunicado [2010] escrito por anarquistas de Ferrara (Norte de Itália), expõe um episódio revoltante que ocorreu em Comacchio, uma cidade na província de Ferrara. Aparentemente apenas uma história de província, mas uma que nos faz recordar as condições inaceitáveis impostas por este sistema assassino, uma história que nos diz respeito a todxs.

A psiquiatria recorre cada vez mais aos mais terríveis meios para retirar a liberdade daquelxs a quem ela considera desviantes, de acordo com a sua visão tendenciosa de “normalidade”.

A 28 de Maio de 2010 – numa animada cidade na província de Ferrara, onde um presidente da câmara reacionário e de direita acabava de ser eleito – um homem de 34 anos foi sujeito à actividade hedionda de médicos psiquiátricos e dos seus melhores amigos de uniforme (polícia e polícia paramilitar-carabinieri).

Tudo começou quando a polícia foi alertada que um homem tinha entrado numa igreja e começado  a jurar durante a missa. Eventualmente o homem foiposto fora de um bar, onde exibiu algumas posturas de artes marciais. Isto foi o que a imprensa local relatou, descrevendo o homem como um “perigo público, alguém de quem se ter medo”.

Um casal de bófias chegou ao bar para informar o homem que ele tinha de se apresentar para um TSO [tratamento psiquiátrico obrigatório], que tinha sido autorizado pelo seu médico de família e pelo presidente da câmara na mesma manhã. O homem já tinha sido submetido a TSO no passado e tinha perdido o seu trabalho como ascensorista de praia por essa razão. Este,como ainda tinha viva a memória do sofrimento passado nas mãos dos psiquiatras, reagiu com raiva e começou a bater nos bófias, causando uma lesão no maxilar de uma agente. Os bófias tentaram imobilizá-lo com algum spray de pimenta mas o homem conseguiu escapar e chegar a casa, onde se barricou cerca de 25 horas. As forças da ordem montaram um cerco à volta da casa e nas ruas adjacentes, com a implantação maciça de militares, bombeiros e operadores da Cruz Vermelha (tudo isto porque o homem tinha entrado numa igreja a jurar e tinha feito umas posturas de karaté fora de um bar!). A água, o gás e a electricidade foram cortados durante todo o período do cerco.

Quando se percebeu que o homem estava prestes a render-se, o chefe local dos carabinieri deu ordem às suas unidades especiais para entrar na casa, destruindo a porta e usando gás lacrimogéneo. O homem foi então imobilizado, sedado, preso e levado para um instituto psiquiátrico, onde lhe foram administradas drogas psicotrópicas e foi mantido sob vigilância apertada durante alguns dias, até que um juiz confirmou a sua detenção no instituto psiquiátrico.

Como foram encontradas espadas orientais na casa do homem, por causa da sua paixão por artes marciais, o juiz pode acusá-lo de “comportamento anti-social perigoso, o que o levará a ser trancado num hospital psiquiátrico judicial. Para além disso, o homem foi acusado de agredir uma agente da polícia quando tentava escapar à detenção. Escusado será dizer que não foi feita nenhuma menção dos ferimentos que lhe foram infligidos pela bófia quando lhe entraram pela casa.

Várixs jornalistas serventes do poder têm questionado, através dos seus jornais de merda, porque é que o homem reagiu de forma tão violenta face à possibilidade de um tratamento sanitário compulsivo. Gostaríamos de lembrá-los porquê.

O tratamento sanitário compulsivo (ou TSO) é um mecanismo perverso, que nega aos “pacientes” qualquer hipótese de o recusar. É um caso único no domínio dessa ciência chamada medicina, onde qualquer tipo de tratamento deve ser administrado com o consentimento do paciente e interrompido quando este decida fazê-lo. Essa possibilidade não é válida para essa pseudo-ciência chamada psiquiatria, cujo objectivo não é o bem estar dos “pacientes” (pacientes imaginários) mas a classificação de comportamentos e pensamentos considerados anormais, bizarros, estranhos ou simplesmente fora do vulgar. Daí a invenção de uma série de doenças mentais, que nunca foram demonstradas, e que servem apenas para justificar a intrusão do preconceito psiquiátrico na esfera individual das pessoas.

Por outras palavras, quando xs psiquiatras te consideram como “incapaz de entender ou decidir” eles tomam o direito de te magoar… para o teu seu bem estar é claro.

Basta visitar qualquer estrutura psiquiátrica, seja uma ala de hospital ou outro tipo de institutos, para ter uma ideia da “cura” pretendida pela psiquiatria: coletes de forças, drogas psicotrópicas que convertem as pessoas em zombies, injecções de drogas cujo efeito pode durar um mês inteiro sem a possibilidade de o interromper devido a efeitos secundários desagradáveis, horários rigídos, salas assépticas onde não se pode fazer absolutamente nada, às vezes reclusão total e outras vezes algumas horas fora do quarto sob a escolta do pessoal de uniforme branco. Os locais da psiquiatria são alienantes e servem apenas para trancar as pessoas, a cura é só um pretexto.

É por isso que somos contra a psiquiatria e estamos ao lado de todos aquelxs que se tentam defender dela a todo o custo.

É por isso que somos contra os jornalistas e os seus artigos de merda que apresentam um homem a jurar numa igreja como um perigo para a comunidade,alguém de quem se tem medo, alguém para ser sedado rapidamente a fim de restabelecer uma vida pacífica que se assemelha a obediência passiva às leis judiciais e morais de domínio.

É por isso que somos contra o Estado e contra todos os governos, que em Itália têm considerado há anos a possibilidade de reformar os departamentos psiquiátricos, concedendo a sua gestão ao sector privado e reintroduzindo práticas como os electrochoques (que ainda estão a ser usados em alguns institutos).

A Psiquiatria não pode ser reformada. Deve ser destruída pela base pois esta sociedade – onde um dia quem quer que salte de uma grua ou do telhado de uma fábrica depois de ser demitido irá ser rotulado de maluco, assim como o irá ser quem quer que proteste contras as injustiças sociais produzidas por este sistema económico – continuará a despejar as consequências da sua crise naquelxs que estão a ser inexoravelmente exploradxs.

Anarquistas de Ferrara